Romeu e Julieta pertenciam a famílias inimigas. O drama de Shakespeare nasce justamente daí: eles se amam apesar dos Montéquios e dos Capuletos. O amor tenta atravessar uma fronteira que outros construíram antes deles.
Sergio del Molino imagina ironicamente uma atualização dessa história. Talvez os Romeus e Julietas de hoje nem precisassem de famílias inimigas. Poderiam descobrir, durante uma conversa, que votam diferente, pensam diferente ou pertencem a campos ideológicos opostos. E isso talvez bastasse para separá-los.
A provocação parece divertida. Mas não é pequena.
Ela nos leva a uma pergunta desconfortável: em que momento uma ideia passou a valer mais que uma pessoa?
Não se trata de defender a indiferença política. Muito menos de imaginar que todas as ideias sejam equivalentes. Existem posições políticas que envolvem questões fundamentais de justiça, liberdade, dignidade humana e organização da sociedade. Política não é apenas conversa de eleição. Ela interfere concretamente na vida das pessoas.
O problema começa em outro lugar.
Começa quando deixamos de dizer: “discordo do que você pensa” e passamos a dizer, mesmo silenciosamente: “agora sei quem você é”.
Parece uma pequena mudança de frase. Não é.
Na primeira afirmação, existe uma ideia entre duas pessoas. Na segunda, a ideia engoliu a pessoa.
Eu não sou apenas aquilo que penso
Talvez uma das dificuldades contemporâneas esteja justamente na fusão entre opinião e identidade.
Temos ideias políticas, religiosas, filosóficas, científicas e morais. Algumas nos acompanham durante décadas. Outras abandonamos pelo caminho. Algumas defendemos ardorosamente hoje e talvez recordemos com certo constrangimento daqui a vinte anos.
Se somos capazes de mudar de opinião, há alguma coisa em nós que permanece enquanto as opiniões mudam.
Essa constatação aparentemente simples ganha outra dimensão quando introduzimos a perspectiva espiritual.
Para o Espiritismo, o ser humano não se reduz à personalidade social que apresenta nesta existência. Somos espíritos em processo, vivendo experiências sucessivas, submetidos às condições históricas, culturais, familiares e sociais de cada encarnação.
Isso modifica profundamente a pergunta.
Se eu tivesse nascido em outra família, em outro país, em outra classe social, recebido outra educação e convivido com outros grupos, pensaria exatamente como penso hoje?
Provavelmente não.
Não significa que sejamos marionetes das circunstâncias. Significa reconhecer que nossa autonomia é construída dentro delas.
A própria ideia espírita de progresso pressupõe isso: somos seres inacabados. Aprendemos, erramos, revemos, avançamos, recuamos, adquirimos experiências.
Como, então, transformar uma opinião circunstancial de alguém numa sentença definitiva sobre aquilo que essa pessoa é?
A polarização tem uma característica perigosa: ela simplifica. De um lado estão “os nossos”. Do outro, “eles”.
Depois disso, o trabalho está quase terminado. Já não precisamos conhecer a pessoa. Basta saber a qual grupo ela pertence.
A humanidade conhece esse mecanismo há muito tempo. Mudam os nomes, as bandeiras e as circunstâncias históricas, mas permanece a tentação de dividir o mundo entre os moralmente aceitáveis e os moralmente suspeitos.
As redes sociais apenas deram a esse velho mecanismo humano uma velocidade extraordinária. Uma frase, uma postagem, um compartilhamento, uma fotografia ou uma declaração podem bastar para classificarmos alguém.
E classificando-o, dispensamo-nos de compreendê-lo.
Há nisso uma curiosa contradição. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e talvez nunca tenha sido tão fácil deixar de ouvir.
A arte de discordar
Del Molino lamenta que tenhamos perdido a arte da discussão. Talvez seja ainda mais grave: estamos perdendo a arte da convivência com a discordância.
Discutir verdadeiramente exige uma condição moral anterior ao argumento: admitir que o outro possui alguma coisa que não depende de estar certo. Sua dignidade.
Posso considerar profundamente equivocada a opinião de alguém sem concluir que essa pessoa inteira esteja contida naquele equívoco. Isso não exige relativismo.
Há ideias que precisam ser combatidas. Há injustiças que precisam ser denunciadas. Há posições incompatíveis com aquilo que entendemos como dignidade humana.
Mas combater uma ideia e desumanizar quem a sustenta são coisas diferentes. Essa distinção talvez seja uma das mais difíceis conquistas morais.
Porque o adversário político é também pai, mãe, filho, trabalhador, vizinho, amigo; alguém que sofre, teme, deseja, perde pessoas queridas, envelhece e procura algum significado para sua própria existência.
Ou seja: antes de ser adversário, é humano. E, para uma filosofia espiritualista, há ainda alguma coisa além: é espírito.
O espírito atrás da opinião
Aqui talvez esteja o ponto em que a questão política se transforma numa questão espiritual.
Se admitimos a existência do espírito e sua evolução através de experiências sucessivas, então nossas identidades atuais tornam-se necessariamente provisórias. Nacionalidade, profissão, posição social, partido, ideologia, patrimônio, prestígio — tudo pertence às circunstâncias de uma existência.
O espírito permanece; as circunstâncias mudam.
Isso não diminui a importância das escolhas presentes. Ao contrário. Dá-lhes responsabilidade. Mas impede que transformemos aquilo que é transitório em essência.
Talvez o adversário de hoje pudesse ter sido nosso companheiro ontem. Talvez aquele cuja visão de mundo nos parece incompreensível esteja atravessando experiências diferentes das nossas. Não precisamos inventar histórias reencarnatórias para perceber a consequência filosófica dessa hipótese: ninguém cabe inteiramente na identidade que apresenta neste momento.
Nem nós.
Esse reconhecimento deveria produzir certa humildade.
Há uma confusão frequente em torno da palavra tolerância. Tolerar não significa considerar todas as opiniões verdadeiras. Também não significa abandonar convicções para preservar relações.
Podemos discordar profundamente.
A questão é outra: o que fazemos interiormente com aquele de quem discordamos?
É possível defender justiça cultivando ódio? É possível combater intolerância tornando-nos intolerantes? É possível defender a dignidade humana enquanto retiramos simbolicamente a dignidade daqueles que estão do outro lado?
Essas perguntas não pertencem apenas à política. Pertencem à moral. E talvez pertençam ainda mais à espiritualidade.
Porque uma espiritualidade que só funciona entre pessoas que pensam da mesma maneira exige muito pouco de nós. É relativamente fácil falar em fraternidade numa sala cheia de semelhantes.
O problema começa quando entra o diferente.
Nossos Montéquios e Capuletos
Talvez seja essa a força inesperada da imagem de Romeu e Julieta.
Durante séculos, olhamos para Montéquios e Capuletos e pensamos: que absurdo duas famílias alimentarem uma rivalidade capaz de destruir aquilo que seus próprios filhos descobriram de mais humano.
Mas talvez tenhamos construído nossos próprios sobrenomes.
Direita. Esquerda. Conservador. Progressista. Religioso. Ateu. Capitalista. Socialista. E tantos outros.
As palavras são necessárias. Ajudam-nos a compreender posições, ideias e conflitos reais. O perigo começa quando deixam de designar ideias e passam a substituir pessoas.
Nesse momento, já não encontramos João ou Maria. Encontramos um rótulo. E discutimos com o rótulo.
A difícil fraternidade
O Espiritismo colocou a fraternidade no centro de sua consequência moral. Mas talvez seja necessário retirá-la de certa abstração confortável.
Fraternidade não é gostar de todos. Não é concordar com todos. Não é abandonar o pensamento crítico.
Talvez seja algo muito mais difícil: reconhecer no outro uma dignidade que permanece mesmo quando nossas ideias entram em conflito.
Isso exige também reconhecer nossa própria condição provisória. Podemos estar certos em muitas coisas.
Podemos também estar errados em algumas das convicções que hoje defendemos com absoluta segurança.
A história humana deveria ser suficiente para ensinar-nos essa cautela. Se somos espíritos em evolução, não somos obras terminadas.
Nenhum de nós.
Talvez por isso a verdadeira espiritualidade não se revele apenas naquilo em que acreditamos, mas na maneira como tratamos aquele que acredita diferente.
É fácil amar uma humanidade abstrata. Difícil é conversar com o cunhado no almoço de domingo.
E talvez seja justamente aí, muito mais do que imaginamos, que comece o exercício espiritual.