Autor: wgarcia

A poeira, o tempo e o momento

RESENHA

Livro: Leopoldo Cirne

          Vida e propostas por um mundo melhor

Autor: Antonio Cesar Perri de Carvalho

Formato: 23cm X 16cm, Capa cores, miolo P/B

194 pp.

Edição: CCDPE-MC / Cocriação

 A trova antiga revela: o tempo não me dá tempo/ de bem o tempo fruir/ e nesta falta de tempo/ não vejo o tempo fugir.

As motivações humanas para as ações cotidianas são, deveras, fruto do contexto, efeitos do momento e da identidade que se revela às vezes de modo inesperado, estando o ser frente ao fenômeno que aprofunda sua condição psicológica e o leva a se ver no outro.

Para o livro em epígrafe, cabe esse raciocínio se feita a pergunta: o que levou o autor de Leopoldo Cirne, livro recém-lançado em São Paulo, a se debruçar sobre a vida de uma das muitas figuras interessantes da história do espiritismo brasileiro, envoltas na poeira do tempo pela distância da duração?

Se o leitor responder que a resposta está no subtítulo Vida e propostas para um mundo melhor, lamento dizer que se enganou, pois, para que este faça tal sentido será preciso subvertê-lo a ponto de levá-lo a uma insignificância mortal e depois ressuscitá-lo antes que se transforme em poeira definitiva.

Vamos lá.

O livro é bom e revelador para ambas as partes, autor e biografado. E, tão importante quanto: para o espírita que tenha o mínimo de interesse pela história, vendo nela um fator fundamental para (in)compreender o mundo.

Se quem fala do outro, fala de si, Cesar Perri se revela ao revelar parte da personalidade de Leopoldo Cirne. Até aqui, nenhuma surpresa. Se elas há, e há, vamos à sua cata, feito um jornalista (mais…)

História geral do espiritismo

Resenha

Autores: Lucas Berlanza e Eric Pacheco

Formato: 16 cm X 23 cm, 516 págs.

Publicação: CCDPE-ECM – São Paulo, SP, 2023

 

Lucas Berlanza e Eric Pacheco assinam esta obra que tem por subtítulo Resumo Expositivo. Trata-se de um livro com prefácio de Marco Milani e uma proposta de reunir as principais informações sobre o espiritismo a partir da codificação de Allan Kardec

A proposta é bastante interessante, sem dúvida nenhuma, pois objetiva estabelecer uma sequência histórica dos principais fatos desde o espiritualismo moderno até os dias atuais, preocupando-se especialmente em elencar os fatos de forma didática e temporal, sendo, pois, um livro que pretende também, por consequência, auxiliar os estudos da matéria por pessoas e grupos, facilitando-lhes o caminho do conhecimento.

Com isso, procuram os autores reunir os documentos que validam as novas descobertas a respeito da doutrina e do seu personagem principal, Allan Kardec. Ao seguir por essa trilha, os autores não só corrigem informações equivocadas, como também mitos e fantasias criadas sobre (mais…)

MERHY SEBA

REGISTRO

De óculos, Altivo Ferreira recebe o abraço de Merhy Seba. Foto de Ismael Gobbo.

Aos 86 anos, Merhy Seba está de retorno ao mundo dos seres invisíveis. Sua partida deu-se ontem, 14 de dezembro de 2023, na cidade de Ribeirão Preto, onde residia há muitos anos. Era profissional da publicidade, tendo atuado como professor universitário também, depois de retornar à sua cidade natal, Penápolis, interior do Estado.

Conheci-o nos anos 1970, na capital paulista. Atuamos juntos na primeira gestão de Nestor Masotti na USE-SP, União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Ele no comando da área de Comunicação e eu no Departamento do Livro, este criado exatamente na gestão Masotti. Finda esta gestão, não prossegui na USE-SP.

Durante a segunda gestão de Masotti, Merhy decidiu voltar a residir na sua cidade natal e, devido a isso, o cargo de diretor de Comunicação da USE-SP estava por vagar. Em um encontro previamente agendado na Livraria Boa Nova, do hoje falecido e grande entusiasta do espiritismo, o holandês Stig Roland Ibsen, Nestor, na companhia do secretário geral da USE-SP, Antonio Schiliró, convidou-me a retornar à USE-SP e substituir Merhy Seba, mas declinei, esclarecendo que estava às vésperas de lançar o livro O corpo fluídico, que fatalmente me indisporia com a direção da FEB – Federação Espírita Brasileira, especialmente seu presidente, Francisco Thiesen, e isso não seria bom para os interesses da USE-SP, o que, de fato, acabou por ocorrer. Nestor concordou, dando-me razão. (mais…)

Cidadão Rivail – Raízes e vida de Allan Kardec

RESENHA

Autor: Pedro de Campos

Formato 16 x 23 cm

Capa dura – 880 págs.

Casa Editora O Clarim, Matão, SP

Recém-lançado, após um breve período de pré-venda, o livro em foco tem a sua edição sob a responsabilidade da conhecida O Clarim, casa fundada por Cairbar Schutel no primeiro quarto do século XX. Trata-se de uma obra volumosa – 880 páginas – muito bem impressa e de fino acabamento.

Confesso que não conhecia o autor, Pedro de Campos, embora a ele se atribua a escritura de outros livros. A publicidade feita pela editora despertou-me grande expectativa, especialmente pelo fato de vivermos um período fértil em documentos novos sobre a vida, o trabalho e a obra geral de Allan Kardec. Pelo título, Cidadão Rivail – Raízes e vida de Allan Kardec, e a proposta informada de uma atualização de tudo o que de mais recente existe sobre o assunto, era possível aguardar um trabalho que pudesse nos trazer uma linha do tempo capaz de posicionar os leitores de forma clara e precisa.

Essa expectativa é atendida em parte. Trata-se, de fato, de mais uma obra de fôlego, dada à, sem dúvida, exaustiva e extensa pesquisa revelada pelo autor deste novo cidadão Rivail, obra que vem se juntar a inúmeras outras publicadas no período recente no meio espírita, as quais reposicionam a figura de Allan Kardec no espaço e no tempo, do contexto em que surgiu à obra realizada, especialmente seu pensamento enquanto fundador do espiritismo. (mais…)

O espiritismo segundo o evangelho

A inversão de valores ganhou adeptos, cresceu e atualmente aquele que não adere é julgado fora da ordem e desnaturalizado.

Há um processo imperceptível, gradual, que altera a ordem dos fatos e inverte posições. Kardec começa sua obra pelo Livro dos espíritos e a filosofia. Produz, na sequência, o Livro dos médiuns, promovendo a razão que explica os fatos e dá suporte à filosofia. Por fim, entra na natureza de Jesus e no seu ensino e assenta a moral consequente da filosofia inicial. Está, assim, formalizado o Espiritismo em bases que, para usar o lugar comum, representam uma construção sobre a rocha.

O processo de degradação – e não se imagine que falo aqui de pureza doutrinária – inicia-se logo a seguir e este processo pode ser elevado ao nível da naturalidade, mesmo que ele se dê, em verdade, no nível da cognição. Assim como a natureza leva a vida a alcançar rapidamente o seu ápice e depois entrar em declínio, a construção do conhecimento, em certa medida, obedece ao mesmo processo de apogeu e declínio.

O apogeu de Kardec encontra-se no momento em que a sua obra é colocada à disposição do leitor e não quando este leitor a completa; é ali, na exposição pública e incontrolável do pensamento em forma de discurso que o autor se dá à contemplação do conteúdo e à reflexão dos seus desdobramentos. Após, não pode mais controlar esses desdobramentos que surgem com a recepção, significando aqui o começo do declínio da obra e o início de construção de um novo conteúdo, que já não será mais tão-só o pensamento e as significações propostas pelo autor, mas a soma destas com as que o leitor então elabora. Leia o texto completo

 

O que você morre e o que vive

Samba, de Di Cavalcanti, transformada por IA.

Quando não ceifada antes da morte natural, a árvore se desfaz no lento processo do tempo. Seus lamentos, se lamenta, não são audíveis e sua memória, se existe, não roga luz. A árvore simplesmente cumpre o seu trajeto na vida e deixa à natureza o destino. Quando ela morre todos sabemos o que acontece.

O homem, em sua sabedoria anã, torce e retorce na duração escassa do tempo em que (sobre)vive, desejando que a memória seja imortal, posto que de si mesmo desconhece as duas: (i)mortalidade.

Mais do que a ansiedade da vida há a da história. O tempo que encurta dia a dia surpreende pela rapidez com que se despetala e aumenta essa ansiedade de memória. A contrapartida surge no desejo de registrá-la cada vez mais cedo. Por isso, homens com parca história já se sentem premidos para contar suas experiências. É verdade, também pressionado pelo sistema de compra e venda que o oprime.

As (auto)biografias de vidas que nem alcançaram o segundo degrau da escada inundam as estantes das livrarias e fazem jorrar ausências, porque onde não tem história sobra palavra. Só quando o estilo é bem cuidado se ganha alguma coisa. Mas… isso é raro e pouco.

 O homem ansioso do nosso tempo não quer simplesmente ver esvaírem-se seus dias sem dar sua versão de si nem substituir os vazios por ações capazes de fazer história. O ver e fazer-se ver justificam as mentiras, as omissões e as fantasias contadas com toda seriedade. Leia o texto completo

 

Que multidão me mutila?

Na multidão não sou nada, não sou ninguém…

A multidão me assombra, sob quaisquer dos seus aspectos. Nela, sinto-me comandado, empurrado, mutilado, indefeso, impelido, sem controle.

Na multidão não sou nada, nem gente, nem ser, nem ente. Sou vara de marmelo, pronta para açoitar, marcar, afirmar, sob o comando do desconhecido, de voz qualquer.

Com a multidão me vejo forte, de uma força descomunal, despido de sentimentos, de capacidade de controle, de tempo e pensamento.

Deixo de ser alguém na multidão, para me tornar instrumento, dente de engrenagem, vórtice sugador, martelo de bater, espada de matar, aríete de atirar e destruir.

Na multidão me perco de tudo aquilo que sou, sonho, projeto, desejo, aspiro. Sou voz descontrolada, abafada, inaudível, descoordenada. Leia texto completo

 

Um trono para uma rainha

Conta-se que num país distante uma jovem de beleza invejável sonhava um dia poder sentar no trono e de lá irradiar toda sua bondade e justiça aos seus súditos. Depois de muito esforço, conseguiu aproximar-se do rei e sua beleza o fez sorrir, sua graça o conquistou e sua inteligência fê-lo reverenciá-la.

O rei ofereceu-lhe um lugar próximo ao trono e a jovem, toda contente, sentiu-se elevada aos céus. Logo, porém, estar próxima do rei não lhe era suficiente, de modo que ambicionou casar-se com o conselheiro e amigo do rei, de modo a mostrar toda sua capacidade e lealdade, porém o conselheiro do rei já havia escolhido aquela que faria parte de sua vida, e não era ela. Isso deixou a moça triste durante muito tempo, mas ela não perdia a esperança de um dia desposá-lo.

Contudo, vendo que o conselheiro do rei havia tornado realidade seu casamento com a moça que escolhera, e tendo ele partido para uma longa viagem, a jovem se colocou em presença do rei e se disse à disposição para ocupar o lugar de conselheiro provisoriamente vago, obtendo do rei, que a admirava muito, pleno consentimento. E foi dessa forma que a jovem passou a saber das intimidades do rei, das suas angústias e dos seus sonhos, admirando-se logo pelo fato de que de perto o rei parecia ainda mais belo e inteligente do que à distância.

Mas quando o conselheiro do rei retomou o seu posto, a jovem soube que deveria prosseguir e erguer o seu próprio trono de outra maneira. Foi assim que se despediu do rei garantindo que continuaria fiel a ele por todo o sempre, e que ele seria o rei que jamais conheceu antes. Leia o texto completo

 

Um coração grande para uma razão imensa

O caro Arnaldo da EME, amigo de tantas décadas, que assina Rodrigues de Camargo, enviou-me em abril passado um exemplar do seu livro Mente saudável, vida serena, recém-publicado pela mesma editora que fundou e com garra especial dirige na cidade de Capivari, interior de São Paulo. Edição bem cuidada, com ilustrações expressivas e cores leves, em acordo fino com o sentido dos textos que reuniu, páginas de sua criação esparsas aqui e ali, agora num só volume.

Aí está. Mente saudável, vida serena nos trás um Arnaldo de hoje, depois das esfregas editoriais que todo gráfico há de ter para ser de fato um editor, e das subidas e descidas da vida que a estrada apresenta em suas surpreendentes nuances diárias; mas é, no fundo, o mesmo homem de mais de quatro décadas atrás, quando o conheci e desde então persegui e provoquei, vi e admirei. Dedicado às boas causas, persistente, aprendiz em regime continuado, de fala tranquila, editor mais por destino que escolha, mas desafiador no ramo livreiro pelo qual se empolgou: o livro espírita.

Quando leio as páginas deste seu Mente saudável, vida serena, confesso, (mais…)