Se a ciência expandiu nosso conhecimento sobre o cosmos de forma impressionante, talvez seja hora de perguntar: será que nossa visão sobre o mundo espiritual não ficou pequena demais — terrestre demais, humana demais?
Uma leitora fez uma pergunta que me deixou pensando. Ela havia lido meu texto anterior, Um bilhão de galáxias e uma única pergunta: e o espírito?, e trouxe uma questão que merece ser levada a sério.
Ela disse, em resumo:
— Tudo bem, falamos de bilhões de galáxias, de um universo gigantesco… mas e o outro lado? O que tudo isso tem a ver com a realidade espiritual? Será que o tamanho do universo material diz algo sobre o universo espiritual?
A pergunta é boa. A resposta, porém, pede cuidado.
O que a ciência mudou no Espiritismo, afinal?
Antes de responder, ela fez outra pergunta igualmente importante:
— Desde Kardec, o que a ciência descobriu que nos fez repensar conceitos espíritas?
Essa é uma questão que tratamos muitas vezes com leveza. Dizemos que o Espiritismo acompanha a ciência, mas será que realmente paramos para avaliar o impacto das descobertas científicas?
A verdade é que o mundo mudou radicalmente desde 1869. O universo que conhecíamos na época de Kardec era bem mais simples. Hoje, falamos de relatividade, expansão cósmica, buracos negros, exoplanetas, matéria escura, energia escura… O cenário é outro.
Mas isso não prova nem desmente os princípios espíritas — como a existência do Espírito, a reencarnação ou a comunicabilidade. Essas questões exigem outro tipo de investigação.
Então, o que a ciência nos trouxe? Não uma confirmação, mas uma ampliação do horizonte. E isso, por si só, já é filosoficamente relevante.
Um universo que não para de crescer
A astronomia tem uma lição constante: quanto mais enxergamos, menor nos tornamos.
- A Terra deixou de ser o centro.
- O Sol virou uma estrela comum.
- A Via Láctea é apenas uma entre bilhões.
E o telescópio Nancy Grace Roman vai nos mostrar ainda mais.
Diante disso, uma pergunta incômoda aparece: nossa visão do mundo espiritual acompanhou essa expansão?
Talvez não.
Ainda imaginamos o espírito com categorias muito terrenas: cidades, hospitais, escolas, governos, hierarquias, fronteiras… Como se o além fosse uma versão mais arrumada do nosso bairro.
Não estou dizendo que isso seja mentira. Mas será que não estamos transformando experiências mediúnicas pontuais em geografia espiritual universal?
Talvez estejamos olhando para o infinito pela janela de casa
O antropomorfismo é velho conhecido. Ao longo da história, criamos deuses com aparência e sentimentos humanos. Transferimos para o céu nossas instituições e nossas paixões.
O espiritismo deu um passo importante ao tirar o espiritual do campo do sobrenatural e trazê-lo para o da observação. Mas nem por isso ficamos imunes a esse velho hábito.
É compreensível. Não temos outra linguagem para descrever o desconhecido a não ser aquilo que conhecemos. O problema não é usar metáforas, mas esquecer que são metáforas.
Uma experiência mediúnica pode ser real e verdadeira, mas não precisa ser a descrição completa de toda a realidade espiritual. Há uma diferença enorme entre o que se vive e o que se conclui sobre o todo.
O erro da escala
Imagine um visitante de outro planeta que chegasse à Terra, conhecesse uma única aldeia e voltasse para casa dizendo: “É assim que funciona o planeta deles”.
Ele não estaria mentindo. Mas estaria reduzindo o imenso à medida do seu olhar.
Talvez façamos o mesmo com certas descrições do mundo espiritual. Pegamos uma experiência verdadeira, localizada, e a transformamos em um mapa do universo inteiro.
Se o espírito é tão vasto quanto a própria vida — como o espiritismo sugere —, então ele certamente não cabe inteiramente no que conseguimos descrever.
É bom lembrar: Kardec não fez um atlas do além. Ele perguntou sobre a localização dos Espíritos e recebeu respostas que relativizam nossas ideias de espaço e tempo.
O mundo espiritual não foi descrito como um planeta em algum canto do universo. Há uma sutileza filosófica nisso: talvez categorias como distância, duração e matéria não funcionem da mesma forma lá.
Perguntar “onde fica o mundo espiritual” pode ser tão sem sentido quanto perguntar o endereço de um pensamento.
O universo material reflete o espiritual?
Chegamos então à pergunta da leitora.
Não sei.
E é importante admitir isso. Não temos ciência que comprove uma correspondência direta entre universo material e espiritual. Não podemos transformar galáxias em colônias espirituais só porque soa bonito.
Isso seria poesia — e talvez ótima poesia —, mas não conhecimento.
Porém, podemos reformular a pergunta: se a realidade material é tão complexa, por que a espiritual seria simples?
Aí a conversa muda. Não estamos mais afirmando correspondências, mas questionando nossa própria presunção.
A imensidão material não prova a imensidão espiritual. Mas nos ensina humildade.
Talvez Copérnico ainda não tenha chegado ao mundo espiritual
Copérnico tirou a Terra do centro do cosmos. Depois dele, outras descobertas nos tiraram do centro de tudo.
Mas, no campo espiritual, ainda agimos como se fôssemos o centro. Imaginamos o além organizado para nós, parecido conosco, preocupado conosco.
E se há espíritos de outros mundos — como Kardec admitiu —, por que eles se organizariam segundo modelos sociais terrestres?
A pergunta já mostra o tamanho do nosso provincianismo.
O telescópio Nancy Grace Roman não vai filmar o mundo espiritual. Ele vai estudar fenômenos físicos. Mas pode nos dar algo valioso: mais espanto.
E o espanto, como diziam os filósofos, é o começo da sabedoria.
Quanto mais descobrimos, mais difícil fica sustentar certezas pequenas. Talvez a maior contribuição da cosmologia para o Espiritismo não seja confirmar nada, mas nos impedir de construir um universo espiritual à nossa imagem e semelhança.
E o espírito, afinal?
Voltamos à pergunta inicial.
Diante de bilhões de galáxias, o que dizer do Espírito?
Talvez agora possamos responder com mais honestidade:
— Não sabemos até onde vai sua experiência. Não sabemos quais formas de consciência existem. Não sabemos se nossas palavras — espaço, tempo, matéria — ainda fazem sentido lá.
Sabemos pouco. E talvez seja exatamente isso que torna Kardec tão atual. Não porque ele tenha respondido tudo, mas porque deixou aberta a possibilidade de perguntar.
O verdadeiro legado do Espiritismo pode não ser uma foto fixa do mundo espiritual. Pode ser a disposição de continuar investigando.
Diante das novas imagens do cosmos, o espírita pode fazer duas coisas:
- Tentar encaixar tudo nas ideias que já tem.
- Olhar, aprender e se deixar surpreender de novo.
Kardec escolheria provavelmente a segunda. E então talvez percebamos que a grande pergunta não é apenas: como pode existir um universo tão grande?
Mas também: se o universo material é tudo isso, por que imaginamos que a realidade do Espírito precise caber no pequeno mundo que fomos capazes de descrever?
Wilson, você veio em boa hora falar sobre este assunto que mexe comigo já há muito tempo. Tanto que me faço cético e ao mesmo tempo crente diante de enigmas enormes, tal como a Esfinge repercutindo-me no ser: “decifra-me, ou te devoro”. Stephen Hawking pensa o Universo numa Casca de Noz. Se ele concebe a infinitude da grandeza do Universo físico material, ao mesmo tempo, pela simbologia da casca de noz, ele admite a pequenez finita desse Universo contido no “espaço infinito”, por expansível ocupando e preenchendo “espaços antes vazios”. E quanto a nós, “Espíritos” (se é que existimos realmente, ou seremos ilusão), é a mesma coisa, nosso pensamento, percepção das coisas restritas ao nosso horizonte cognitivo, não seremos também “universos numa casca de noz”? Concebemos e conceituamos o “mundo espiritual” na perspectiva do mundo material. A Pedagogia do Conhecimento é sempre feita a partir da observação e do conhecimento das coisas concretas para concebermos as coisas abstratas, das coisas simples para as coisas complexas. Conhecidas as abstratas, estas se tornam concretas, porque além delas há outras abstratas para devassar e se tornarem por sua vez, concretas. A mesma coisa para as complexas, resolvidas e tornadas simples estas, há além, complexidades para serem desenoveladas. “O estudo das leis materiais deveria preceder o da espiritualidade, porque é a matéria que primeiramente fere os sentidos” (A Gênese. 1,16). Kardec, ao elaborar nas Obras Póstumas as cinco alternativas da Humanidade: o Materialismo, o Panteísmo, o Deísmo, o Dogmatismo e o Espiritismo, ele expõe o sequenciamento intrínseco da evolução do pensamento, colocando o Materialismo diametralmente oposto ao Espiritismo, e no meio transitando entre um e outro, ele coloca as três correntes que permeiam a natureza do Ser. Sem querer, contudo, corrigir Kardec (eu não ousaria tanto), eu trocaria os termos: em vez de Materialismo, eu diria “Materialidade”, e em vez de Espiritismo eu diria “Espiritualidade”. Somos e estamos em transição contínua de uma para a outra, de tal forma que no nosso psiquismo, seguimos materializando o mundo espiritual (OLE: 959). Em consequência, os espíritas em geral, vivem não fora da “Realidade”, vivem fora da “Atualidade”, não se atualizam diante das transformações do Mundo em constantes progressos, permanecem engessados no “Kardec” do século 19, em vez de avançarem para a Episteme Universal, fizemos do Espiritismo uma Religião.
Excelente reflexão. Talvez a imagem mais provocadora do seu comentário seja esta: **nós mesmos somos “universos numa casca de noz”**. Pensamos o espiritual com os instrumentos cognitivos, culturais e linguísticos que a experiência material nos oferece. Por isso, nossas descrições do mundo espiritual serão sempre provisórias e, provavelmente, demasiado humanas.
Sua observação final toca num ponto decisivo: o problema não está em permanecermos com Kardec, mas em permanecermos apenas **no Kardec do século XIX**. Ser fiel a ele talvez signifique justamente fazer o que ele fez: observar o presente, acompanhar o conhecimento, rever conceitos e avançar.
Transformar Kardec em ponto final seria uma estranha maneira de ser kardeciano.