Tenho usado, em alguns textos, a expressão “espiritismo clássico”. Chegou a hora de explicar exatamente o que quero dizer com ela.
Desde já, um esclarecimento: a expressão não pretende designar uma escola oficialmente reconhecida dentro do movimento espírita. Também não estou propondo uma nova divisão entre espíritas. Uso-a como instrumento de compreensão — uma maneira de identificar determinada concepção do Espiritismo que, a meu ver, conserva características fundamentais do projeto iniciado por Allan Kardec.
E a primeira coisa a dizer é esta: clássico não quer dizer antigo, e muito menos significa imutável.
Quando falo em espiritismo clássico, não estou propondo um retorno ao século XIX. Não se trata de imaginar que todas as respostas necessárias já estejam em O livro dos espíritos, em O livro dos médiuns, na Revista Espírita ou nas demais obras de Kardec.
Isso seria, aliás, pouco kardeciano. Kardec trabalhou com o conhecimento disponível em seu tempo. Observou fenômenos, interrogou médiuns, comparou comunicações, formulou hipóteses, descartou respostas, reviu conceitos e procurou estabelecer critérios para separar o que lhe parecia confiável do que considerava insuficientemente demonstrado.
Seu trabalho não nasceu de uma teologia pronta, mas de um problema. Há alguma coisa no ser humano que sobrevive à morte? E, se sobrevive, é possível comunicar-se com ela? Essas perguntas estão na origem do Espiritismo. Por isso, quando falo em espiritismo clássico, começo por aqui: não significa conservar as respostas do século XIX, mas conservar a disposição de fazer perguntas.
O fenômeno antes da doutrina
Há um aspecto particularmente importante. O Espiritismo não surgiu inicialmente porque alguém resolveu criar uma nova filosofia moral. Surgiu diante de fenômenos que pareciam desafiar as explicações disponíveis. Mesas que se movimentavam, comunicações aparentemente inteligentes, escrita mediúnica, fenômenos físicos, informações atribuídas a pessoas falecidas.
Podemos hoje discutir a interpretação de muitos desses acontecimentos. Podemos reconhecer fraudes, ilusões, erros metodológicos e ingenuidades que acompanharam as pesquisas daquele período. Devemos, inclusive, fazê-lo. Mas permanece um dado histórico essencial: a doutrina veio depois do fenômeno.
Primeiro apareceu o problema. Depois vieram as tentativas de explicá-lo.
Essa ordem é decisiva para aquilo que chamo de espiritismo clássico. A mediunidade não é um detalhe lateral do Espiritismo. Tampouco é apenas instrumento destinado ao consolo dos que sofrem ou ao atendimento de espíritos necessitados. Ela está no nascimento do problema espírita.
Sem a hipótese da comunicação entre consciências encarnadas e desencarnadas, boa parte da construção espírita perde sua base experimental e passa a depender essencialmente da crença.
Kardec não esteve sozinho. Ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, pesquisadores e autores muito diferentes entre si examinaram fenômenos relacionados à mediunidade e à sobrevivência: William Crookes, Alexander Aksakof, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano e tantos outros.
Nem todos chegaram às mesmas conclusões ou usaram métodos que hoje consideraríamos satisfatórios. E justamente aí está um ponto importante. O espiritismo clássico que proponho não consiste em declarar que esses pesquisadores estavam certos em tudo. Consiste em reconhecer neles uma atitude: os fenômenos deveriam ser investigados.
Essa é uma das heranças mais importantes daquele período. Não acreditar nem negar simplesmente, mas investigar.
Clássico e progressivo
Pode parecer contraditório chamar de “clássico” um pensamento que pretendo progressivo. Não é. Uma obra clássica não é aquela que permanece congelada no tempo, mas aquela cujas perguntas continuam fecundas. O próprio Kardec estabeleceu um princípio bastante conhecido: se algum ponto do Espiritismo fosse demonstrado como incompatível com fatos cientificamente estabelecidos, o Espiritismo deveria modificar-se nesse ponto.
Isso significa que fidelidade não pode ser confundida com imobilidade. Podemos abandonar explicações antigas e continuar profundamente vinculados ao projeto original. Podemos usar conceitos da neurociência, da psicologia, da física, da genética ou dos estudos contemporâneos da consciência sem pedir que essas disciplinas confirmem previamente aquilo em que acreditamos.
A ciência não existe para autenticar o Espiritismo. E o Espiritismo não precisa transformar cada descoberta científica numa confirmação de Kardec. O diálogo verdadeiro começa justamente quando existe a possibilidade do desacordo. Evidentemente, há uma dimensão moral profunda no pensamento espírita. Reencarnação, responsabilidade, liberdade, solidariedade, justiça e desenvolvimento moral constituem partes importantes de sua visão do ser humano.
O problema começa quando as consequências morais passam a substituir aquilo que lhes deu origem. Um centro espírita pode realizar um trabalho assistencial extraordinário: acolher pessoas, distribuir alimentos, oferecer apoio psicológico e social, ensinar valores de fraternidade. Tudo isso tem valor próprio. Mas ainda permanece uma pergunta incômoda: onde ficaram os espíritos?
Se uma filosofia afirma a sobrevivência da consciência, a comunicação entre vivos e mortos e a existência de uma dimensão espiritual da realidade, seria estranho que progressivamente deixasse de investigar justamente esses fenômenos. Teríamos então uma situação curiosa: um Espiritismo moralmente ativo, socialmente organizado e institucionalmente forte, mas cada vez menos interessado no problema que lhe deu origem.
Nem religião congelada, nem ciência imaginária
O espiritismo clássico, como o entendo, também precisa evitar dois extremos. De um lado, transformar-se numa religião baseada em verdades definitivamente reveladas. De outro, apresentar como ciência aquilo que ainda pertence ao território das hipóteses.
Dizer que alguma coisa foi afirmada por um espírito não constitui demonstração. Mas dizer que determinado fenômeno ainda não tem explicação satisfatória também não autoriza descartá-lo. Entre a credulidade e a negação existe um território muito mais trabalhoso: a investigação. É nele que o espiritismo clássico deveria permanecer.
Por isso, talvez haja um pequeno paradoxo: o espiritismo clássico que defendo pode ser profundamente contemporâneo. Ele não precisa conservar a cosmologia de 1860, a linguagem científica de 1870 ou determinadas concepções sociais do século XIX. Pode — e deve — conversar com aquilo que aprendemos desde então.
Há algo que não pode perder: sua inquietação original. Se somos espíritos, o que exatamente significa ser espírito? Se a consciência sobrevive à morte, como investigar essa sobrevivência? Se existe mediunidade, como distinguir comunicação genuína de construção psicológica, influência cultural, erro, fraude ou fantasia? Se existem informações obtidas por médiuns, como verificá-las? Se novas pesquisas contradisserem antigas interpretações espíritas, teremos coragem de modificá-las?
Essas perguntas não enfraquecem o Espiritismo; elas o mantêm vivo.
Chamo, portanto, de espiritismo clássico a concepção do Espiritismo que preserva sua arquitetura intelectual original: parte do problema da sobrevivência e da comunicação dos espíritos; considera a mediunidade objeto legítimo de investigação; utiliza a crítica e a comparação como instrumentos de conhecimento; dialoga com a ciência e a filosofia sem se submeter nem se opor previamente a elas; reconhece consequências morais em seus princípios; e permanece aberta à revisão diante de novos fatos e novos conhecimentos.
Não é, portanto, um Espiritismo preso a Kardec, mas um Espiritismo que procura continuar o movimento intelectual iniciado por Kardec. Podemos dizer de maneira ainda mais simples: ser clássico não é repetir o que os clássicos disseram. É tentar fazer, em nosso tempo, aquilo que eles fizeram no deles: observar, perguntar, comparar, duvidar e investigar. E, quando os fatos exigirem, mudar de ideia.
Se perdermos isso, poderemos conservar instituições, livros, palestras, centros, congressos e até mesmo o nome Espiritismo. Mas teremos perdido justamente aquilo que fez dele, um dia, uma aventura do conhecimento.