Há descobertas científicas que mais que responderem perguntas tornam-nas ainda maiores.

 

Foi exatamente isso que aconteceu quando pesquisadores observaram que células retiradas de organismos mortos podiam reorganizar-se espontaneamente, formando pequenas estruturas capazes de deslocar-se, cooperar entre si, reparar danos e executar funções inéditas. Os chamados xenobots e, mais recentemente, os anthrobots abriram uma nova fronteira da biologia.

A notícia impressiona. Não porque tenha derrotado a morte, mas porque revelou que ainda compreendemos muito pouco sobre a própria vida.

Durante séculos, acostumamo-nos a imaginar o organismo como uma máquina extraordinariamente sofisticada. Nessa visão, cada célula possuiria uma função previamente determinada, semelhante a uma peça de relógio. Quando o relógio parasse, tudo cessaria.

A realidade parece ser muito mais rica. As pesquisas mostram que determinadas células conservam uma capacidade surpreendente de adaptação. Fora do ambiente para o qual foram originalmente “programadas”, elas descobrem novas maneiras de existir, cooperar e organizar-se.

A natureza parece improvisar. Essa palavra talvez incomode alguns cientistas, mas descreve bem a impressão produzida por essas descobertas. Não estamos diante de um roteiro completamente rígido. A vida explora possibilidades.

Esse talvez seja um dos grandes deslocamentos intelectuais do século XXI. Durante muito tempo, a ciência explicou o mundo principalmente por meio da decomposição das partes. Para compreender um organismo, bastaria estudar seus componentes isoladamente.

Hoje, porém, cresce outra perspectiva.

Os sistemas vivos possuem propriedades que não podem ser deduzidas apenas pelo estudo de cada elemento separado. Quando bilhões de componentes interagem continuamente, surgem comportamentos inteiramente novos. A isso os cientistas chamam emergência.

A vida emerge, a inteligência emerge e a consciência talvez também seja um fenômeno emergente, embora essa questão permaneça aberta.

Mais recentemente, outra ideia vem ganhando força: a auto-organização. Em muitos sistemas naturais não existe um “engenheiro central” controlando cada detalhe. A ordem nasce da interação entre inúmeros elementos relativamente simples.

Um cardume não possui um comandante. Uma colônia de formigas não necessita de um arquiteto. Nosso cérebro não funciona porque um neurônio governa os demais. A organização aparece espontaneamente.

Os xenobots parecem pertencer exatamente a esse universo da auto-organização. As células deixam de executar apenas a função para a qual haviam sido inicialmente diferenciadas e passam a construir novos comportamentos coletivos. É como se a natureza dissesse, discretamente, que ainda possui recursos criativos que desconhecemos. Essa mudança talvez seja mais importante do que os próprios xenobots.

Ela indica que a biologia está abandonando, pouco a pouco, uma visão excessivamente mecanicista da vida. Naturalmente, isso não significa abandonar o rigor científico. Ao contrário, significa reconhecer que a realidade é mais complexa do que os primeiros modelos permitiam enxergar.

Quanto mais aprendemos, menos adequada parece a imagem do universo como uma gigantesca máquina. Ela se parece muito mais com uma imensa rede de relações, adaptações e processos criativos. Essa transformação não ocorre apenas na biologia.

A física abandonou, em larga medida, o antigo determinismo absoluto. A ecologia passou a compreender os organismos como partes inseparáveis de sistemas maiores.

A neurociência investiga redes, plasticidade e reorganização permanente. A teoria da complexidade estuda exatamente como novas propriedades surgem das interações entre elementos aparentemente simples.

Em diferentes áreas, a ciência parece caminhar na mesma direção. Cada descoberta reduz algumas certezas, mas amplia enormemente o horizonte do desconhecido. Sob esse aspecto, talvez vivamos uma curiosa inversão histórica.

No século XIX acreditava-se que o avanço científico eliminaria progressivamente todos os mistérios. O século XXI parece ensinar exatamente o contrário, cada resposta abre dezenas de perguntas novas, cada descoberta revela níveis mais profundos de organização e cada fronteira ultrapassada mostra outra ainda mais distante.

É nesse ponto que a reflexão filosófica se torna inevitável.

O Espiritismo sempre afirmou que o progresso do conhecimento é ilimitado e que ciência e filosofia caminham juntas na compreensão da realidade. Allan Kardec nunca apresentou sua obra como um sistema fechado. Ao contrário, insistiu que ela deveria acompanhar o desenvolvimento das ciências, incorporando novos conhecimentos sempre que estes se demonstrassem consistentes.

Esse princípio talvez seja hoje mais atual do que nunca. As pesquisas sobre xenobots não demonstram a existência da alma, nem poderiam fazê-lo. Permanecem integralmente no campo da biologia.

Mas elas mostram algo extremamente significativo: a natureza continua surpreendendo seus próprios investigadores. Quanto mais profundamente observamos a matéria, menos ela se parece com uma realidade passiva. Quanto mais estudamos a vida, menos ela parece um simples mecanismo. E quanto mais compreendemos os processos naturais, mais percebemos que organização, criatividade e adaptação são características muito mais profundas do que imaginávamos.

Talvez seja essa a maior lição dessas pesquisas. Não a de que a ciência esteja substituindo a filosofia ou a espiritualidade. Mas justamente o contrário. Ao ampliar nossa compreensão da natureza, ela amplia também o espaço da reflexão filosófica porque o verdadeiro conhecimento nunca elimina o mistério. Apenas torna-o mais inteligente.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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