A finitude do corpo e a permanência do espírito, uma história que nos convida a repensar a morte e a viver melhor o presente
O que Tiago Pitthan fez em Campo Grande não foi apenas organizar um “velório em vida”. Foi, talvez sem o saber em termos filosóficos, uma espécie de rito de passagem consciente, uma antecipação simbólica da despedida, transformando a morte anunciada em uma celebração da existência.
Do ponto de vista material, psicológico e social, a atitude de Tiago desafia um dos maiores tabus da cultura contemporânea: a incapacidade de falar sobre a morte. Vivemos numa sociedade que celebra o nascimento, os aniversários, os casamentos e as conquistas, mas que costuma esconder a morte nos corredores dos hospitais e nos silêncios das famílias. Ao reunir amigos para rir, abraçar, ouvir histórias e receber homenagens, ele rompeu esse silêncio. Não quis ser o ausente da própria história.
Sua frase é particularmente reveladora:
“Eu vou morrer uma vez só. O resto do tempo eu estou vivendo.”
Há aí uma sabedoria existencial que dialoga com correntes filosóficas muito diversas, do estoicismo antigo à psicologia contemporânea dos cuidados paliativos. A consciência da finitude não o levou ao desespero, mas à valorização do presente.
Do ponto de vista espiritual, entretanto, a reportagem suscita reflexões ainda mais profundas.
O Espiritismo ensina que a morte não é um acontecimento instantâneo, mas uma transição. O espírito começa a se desligar gradualmente das preocupações exclusivamente materiais à medida que compreende sua condição e se prepara interiormente para a partida. Nesse sentido, a experiência de Tiago pode ser interpretada como um processo de preparação consciente para a desencarnação.
Há algo muito significativo em sua necessidade de ouvir diretamente o que as pessoas pensavam dele. Ele mesmo explicou que teve a ideia ao perceber que, no velório de seu pai, faltava justamente a pessoa que mais conhecia aquela história: o próprio pai.
Essa observação toca um ponto delicado. Quantas homenagens são feitas quando já não podem mais ser ouvidas? Quantos agradecimentos permanecem não ditos? Quantos afetos ficam represados até o instante final?
Sob a ótica espírita, a resposta é especialmente importante porque os laços afetivos não se rompem com a morte. Ao contrário, permanecem vivos na consciência do espírito. Expressar amor, gratidão e reconhecimento antes da partida pode representar um fator de serenidade tanto para quem vai quanto para quem fica.
Há também um aspecto que recorda as reflexões de Léon Denis e de José Herculano Pires sobre a educação para a morte. Ambos insistiram que a humanidade precisa aprender a encarar a morte como parte da vida e não como sua negação. O medo excessivo da morte frequentemente nasce do desconhecimento, enquanto a compreensão de sua naturalidade tende a reduzir a angústia.
Isso não significa romantizar a doença ou negar a dor. O câncer continua sendo uma realidade difícil. O sofrimento físico existe. A saudade futura dos familiares também. Mas a reportagem mostra alguém que recusou ser definido pela enfermidade.
É interessante observar que Tiago repetia:
“Eu não estou morrendo, eu estou vivendo.”
Do ponto de vista espírita, essa frase pode ganhar um sentido ainda mais amplo. Afinal, para a doutrina, ninguém morre realmente. O que morre é o corpo. O espírito continua vivendo. Sem que ele provavelmente pretendesse fazer uma afirmação doutrinária, sua frase acaba aproximando-se da ideia central de Kardec: a vida não é interrompida pela morte; apenas muda de estado.
Talvez o aspecto mais emocionante dessa história esteja justamente aí. Não se trata de um homem celebrando a morte. Trata-se de um homem reafirmando a vida diante da morte.
E isso nos conduz a uma pergunta inevitável: se soubéssemos que temos poucos meses ou poucos anos pela frente, o que mudaríamos hoje?
Talvez abraçássemos mais.
Talvez agradecêssemos mais.
Talvez perdoássemos mais.
Talvez disséssemos às pessoas aquilo que costumamos deixar para depois.
No fundo, o “velório em vida” de Tiago Pitthan pode ser visto como uma provocação dirigida a todos nós. Ele recebeu uma data aproximada para partir. Nós não recebemos. Mas todos estamos caminhando na mesma direção.
A diferença é que ele decidiu transformar essa consciência em celebração.
E talvez a maior lição espiritual da reportagem seja exatamente esta: a preparação para a morte não começa no último dia. Ela começa na maneira como escolhemos viver cada um dos dias que a antecedem.
“Quem acredita que a vida prossegue além do túmulo não encontra na morte o fim da caminhada, mas uma mudança de paisagem. Talvez por isso a maior homenagem não seja aquela que se presta aos mortos, mas aquela que se oferece aos vivos enquanto ainda podem ouvir, sorrir, agradecer e amar.”