A entrevista que a cantora Majur deu ao programa Desculpa Alguma Coisa, com Tati Bernardi, vai muito além de um papo sobre música ou carreira. O que ela compartilhou ali é uma oportunidade rara para a gente refletir sobre coisas profundas: liberdade de consciência, identidade espiritual, pertencimento e intolerância religiosa.
Quando Majur conta como se aproximou do Candomblé, não está falando só de uma escolha religiosa. Ela fala de um processo de emancipação pessoal. Ao dizer que deixar o ambiente evangélico não significou abandonar Deus, mas sim se libertar de uma prisão, ela expõe algo que muita gente vive: a busca por uma espiritualidade que faça sentido com quem a gente realmente é.
Esse ponto é importante porque toca numa necessidade humana fundamental: encontrar um espaço onde a consciência possa respirar sem amarras. As religiões têm um papel essencial na vida em sociedade. Elas dão sentido, pertencimento, valores e acolhimento. Mas, como qualquer instituição humana, também podem virar ambientes de controle excessivo — e aí, muitas pessoas passam a sentir que aquilo não combina mais com sua identidade.
A fala de Majur é reveladora nesse sentido. Ela não rejeita Deus nem a espiritualidade. Pelo contrário: ela mostra alguém que continua buscando o sagrado, só que por caminhos diferentes dos que aprendeu na infância. Essa diferença faz toda a diferença.
Muitas vezes, quando alguém deixa uma religião, acham que abandonou a fé. Mas, na prática, acontece o oposto: a pessoa sai de uma estrutura institucional para preservar a sua vivência espiritual.
O Espiritismo, especialmente na sua formulação original, tem uma afinidade bonita com essa ideia. Allan Kardec sempre insistiu que a adesão à doutrina deveria vir da convicção, nunca da imposição. A famosa “fé raciocinada” que ele propõe pressupõe exatamente a liberdade de examinar, questionar e escolher.
Por isso, mesmo os espíritas que não compartilham das crenças do Candomblé podem reconhecer a legitimidade dessa busca de liberdade que Majur descreve.
O preconceito que insiste em ficar
Um dos momentos mais fortes da entrevista é quando ela lembra a infância: a mãe dela associava o agogô e os sons africanos à palavra “macumba”, usada de forma depreciativa. Parece uma cena simples, mas ela escancara uma longa história brasileira.
Por séculos, as religiões de matriz africana foram marginalizadas, perseguidas e até criminalizadas. Seus símbolos foram ligados ao atraso, à superstição e até ao mal. Isso não veio só de diferenças religiosas, mas de estruturas históricas de racismo que desvalorizavam tudo o que vinha das populações negras escravizadas e seus descendentes.
O preconceito contra o Candomblé não dá pra entender sem lembrar da história da escravidão no Brasil. Quando Majur diz que muita gente ainda associa essas tradições ao demônio, ela toca numa ferida cultural aberta. E vale a pena os espíritas refletirem sobre isso também.
O Espiritismo já sofreu acusações parecidas com as que atingem as religiões afro-brasileiras. Mas, ainda assim, parte do movimento espírita no Brasil acabou absorvendo preconceitos da sociedade ao seu redor. Não são raros os casos em que práticas africanas foram tratadas de forma simplista e depreciativa, sem um estudo sério da sua história, dos seus significados ou da sua espiritualidade.
Resultado: muitas vezes, repetiram estigmas que a própria doutrina espírita deveria combater.
Fenômenos espirituais sem fronteiras religiosas
O que também me chamou a atenção no relato de Majur é como ela descreve sua experiência espiritual. Ela fala dos toques dos tambores, das cantigas, da força dos orixás e da descoberta de uma identidade que enfim encontrou lugar no Candomblé.
Independentemente da interpretação teológica de cada um, o depoimento dela lembra algo recorrente na história humana: a experiência espiritual não é propriedade exclusiva de nenhuma religião.
O Espiritismo tem uma contribuição importante nesse ponto. Kardec nunca disse que os fenômenos espirituais eram monopólio dos espíritas. Pelo contrário: ele via a mediunidade como uma faculdade universal, presente em diferentes povos, épocas e culturas.
Isso nos permite uma distinção fundamental: uma coisa é analisar criticamente as explicações que uma religião dá aos seus fenômenos. Outra, bem diferente, é negar a autenticidade das experiências vividas pelos seus praticantes.
A investigação espírita, bem-feita, começa pela observação dos fatos — não pelos julgamentos prontos. Essa postura favorece o diálogo, não a condenação.
Identidade, pertencimento e espiritualidade
Quando Majur diz que o nome Ojunifé — “Olhos do Amor” — representa o que há de mais íntimo na sua experiência espiritual, ela toca num ponto que os debates doutrinários muitas vezes ignoram. As religiões não entregam só explicações sobre Deus, o mundo ou a vida depois da morte. Elas entregam identidade. Ajudam a gente a responder perguntas como: quem sou? De onde venho? Qual o sentido da minha existência?
Num tempo tão marcado por fragmentação, crises de pertencimento e solidão, esse aspecto fica cada vez mais importante. A espiritualidade vira, para muitos, um espaço de reconstrução pessoal.
O Espiritismo aborda isso de outro jeito. Em vez de amarrar a identidade a uma tradição específica, ele propõe que nossa essência é ser espírito imortal — cuja trajetória atravessa culturas, nacionalidades e religiões.
As duas visões não são necessariamente opostas. Uma pode dar raízes culturais; a outra, horizontes universais.
O desafio da convivência religiosa no Brasil de hoje
Vivemos um paradoxo curioso no Brasil do século XXI. Nunca tivemos tanta diversidade religiosa visível. E, ao mesmo tempo, nunca os conflitos por causa de crenças foram tão frequentes. A intolerância religiosa continua gerando discriminação, violência simbólica e até ataques físicos a templos e praticantes de certas tradições.
Nesse contexto, o depoimento de Majur ganha um peso que vai além do pessoal. Ele nos lembra que a convivência democrática exige mais do que tolerância. Exige reconhecimento. Tolerar é suportar a existência do outro. Reconhecer é entender que o outro tem o mesmo direito de existir, expressar sua fé e construir seu próprio caminho espiritual. Esse talvez seja um dos maiores desafios da nossa época.
O que Kardec faria aqui?
É provável que Allan Kardec encarasse essa questão de um jeito bem diferente do que domina os debates religiosos atuais. Em vez de perguntar qual religião está certa ou errada, ele provavelmente tentaria compreender os fenômenos observados, investigar suas causas e analisar suas consequências morais. Essa mudança de perspectiva desloca o centro da discussão.
A questão deixa de ser “qual crença vence” e vira “como buscar sinceramente a verdade possível em cada experiência humana”. É uma postura menos dogmática e mais investigativa. Menos condenatória e mais compreensiva.
A entrevista de Majur nos dá uma lição que serve não só para quem pratica o Candomblé, mas para qualquer pessoa que reflita sobre espiritualidade. Ela nos lembra que a experiência religiosa não pode ser reduzida a fórmulas doutrinárias. Ela é também memória, cultura, afeto, pertencimento, identidade e busca de liberdade.
O Espiritismo, quando fiel à sua vocação filosófica e investigativa, tem tudo para dialogar com essa diversidade sem renunciar aos seus princípios. Afinal, se a humanidade é feita de espíritos em diferentes graus de desenvolvimento, espalhados por múltiplas culturas e tradições, é natural que a busca pelo transcendente assuma linguagens variadas.
O desafio não é eliminar as diferenças. É aprender a compreendê-las.
Espiritismo e respeito às crenças
Allan Kardec nunca propôs impor o Espiritismo como única via de acesso à verdade. Ele sempre disse que a doutrina deveria conquistar adesões pela persuasão racional e pela observação dos fatos — nunca pela força. A liberdade de consciência é um dos pilares éticos do pensamento espírita e continua super atual em sociedades marcadas pela diversidade religiosa.
Para quem quiser se aprofundar
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita.
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás.
- SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da Metrópole.
- ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro.
