Um artigo provocador, de Leonardo Boff. Ele diz que o feminino é biologicamente anterior ao masculino. Que Adão, na verdade, veio depois. E que a vida não é feita de competição, mas de cooperação. Até onde isso é ciência? E o que o espiritismo pensa disso?
A tese central é ousada: O feminino seria estruturalmente anterior na escala evolutiva. O masculino, uma diferenciação posterior. E o mito de Adão – homem primeiro, mulher derivada – estaria biologicamente invertido.
O argumento pega carona em fatos científicos reais, mas logo avança para interpretações filosóficas e culturais. O resultado é um texto que agrada mais uns, menos outros e, acima de tudo, provoca.
Vamos separar o joio do trigo. E, de quebra, perguntar: o que o espiritismo tem a ver com isso? A biologia moderna confirma algumas partes importantes do artigo. Vamos direto ao ponto:
- Os primeiros seres vivos (há 3,8 bilhões de anos) se reproduziam sem sexo. Eram clones. A sexualidade veio bem depois.
- No desenvolvimento embrionário humano, todo feto começa com uma estrutura indiferenciada. O “padrão básico” é feminino. A masculinização exige um gatilho (o cromossomo Y e hormônios como a testosterona).
- Geneticamente, a mulher tem XX; o homem, XY. O Y é um cromossomo menor, que surgiu por mutação a partir do X. Em termos evolutivos, o X é mais antigo.
Até aí, tudo certo. O artigo acerta ao mostrar que não há um “Adão” biológico no sentido de primazia masculina absoluta. Mas o problema começa quando a ciência vira metáfora, e a metáfora vira dogma.
O pulo perigoso: do biológico ao ontológico
O artigo não para em “o feminino apareceu primeiro no tempo evolutivo”. Ele afirma mais: o feminino é originário, e isso desmente o mito de Adão como símbolo de hierarquia. Cuidado: a ciência, pelo que se sabe até agora, não diz que o feminino é “superior” ou “mais verdadeiro”. Ela descreve processos, não estabelece valores. O que a biologia não diz:
- que o masculino é um erro ou um desvio;
- que a natureza prefere o feminino;
- que exista uma hierarquia ontológica entre os sexos.
Quando o artigo cruza essa linha, ele sai da ciência e entra no território da filosofia e da crítica cultural. Isso não é ilegítimo – mas precisa ser assumido com honestidade intelectual. O problema não é interpretar a ciência. É disfarçar interpretação de fato científico.
Onde o artigo tem razão (e não é pouca)
Apesar dos exageros, o texto acerta precisamente num ponto crucial: a superação da visão da evolução como guerra de todos contra todos. Durante décadas, popularizou-se um darwinismo de boteco: “natureza vermelha em dente e unha”, sobrevivência do mais forte, competição sem trégua. Hoje, a biologia contemporânea mostra outra imagem:
- Cooperação entre espécies (mutualismo);
- Simbiose como motor de inovações (a própria célula com núcleo surgiu assim);
- Redes ecológicas onde ninguém sobrevive sozinho.
A pandemia, as crises climáticas e os debates sobre sustentabilidade só reforçam essa lição: a vida prospera porque coopera, não porque compete o tempo todo. Nesse sentido, o artigo presta um serviço: desloca o eixo da existência da dominação para a relação. Da força para a reciprocidade.
E o que Allan Kardec diria disso? Primeiro, uma convergência importante: o espiritismo nunca levou o Gênesis ao pé da letra. Em A Gênese, Kardec já afirmava que Adão e Eva são representações simbólicas, não relato histórico. Portanto, “o fim do princípio-Adão” como mito literal não é nenhuma novidade para o espiritismo. Pelo contrário. Mas aí vêm as diferenças.
Para o espiritismo clássico:
- O espírito não tem sexo fixo.
- Masculino e feminino são condições da experiência encarnatória, não essências eternas.
- O mesmo espírito pode reencarnar como homem em uma vida e como mulher em outra.
- A individualidade espiritual transcende o corpo sexuado.
Isso significa que, enquanto o artigo parece caminhar para uma ontologia do feminino (o feminino como mais originário, mais verdadeiro), o espiritismo tende a relativizar o sexo diante da primazia do espírito. Para o espiritismo, a pergunta não é “qual sexo é primeiro?”. A pergunta é: o que o espírito aprende ao encarnar ora num, ora no outro?
A grande contribuição que vem do artigo (e o espiritismo aplaude)
Há, porém, um ponto em que o artigo e o espiritismo se encontram de maneira vibrante: a lei da interdependência. O Livro dos Espíritos é claro: ninguém evolui sozinho. A lei de sociedade é uma necessidade evolutiva. A fraternidade não é um enfeite moral – é uma condição para o progresso. O princípio biológico da cooperação encontra paralelo direto na ideia espírita de:
- solidariedade universal;
- coexistência como aprendizado;
- amor como força que organiza a vida.
O individualismo absoluto? Ilusão. Tanto na biologia quanto na espiritualidade.
O artigo termina com uma defesa do amor como força transformadora da sexualidade. Bonito, mas incompleto. Na natureza, a reprodução acontece sem amor. Mas no ser humano, a consciência transforma o instinto em vínculo, escolha e ética. O espiritismo vai além: o amor não é apenas um sentimento ou uma adaptação evolutiva. É uma força evolutiva em si mesma. Não porque seja romântico – mas porque educa a consciência. O instinto liga corpos. O amor educa espíritos.
Vivemos numa época em que a ciência vira bandeira ideológica com facilidade. Dado vira identidade. Genética vira política. Neurociência vira metafísica. O artigo “O fim do princípio-Adão” corre esse risco. Ele usa a ciência para sustentar uma visão de mundo – o que é legítimo – mas às vezes age como se essa visão fosse a única conclusão possível dos fatos. Não é. A ciência descreve mecanismos. Ela não responde sozinha:
- Qual o sentido da vida?
- O que é o amor?
- Por que devemos cooperar mesmo quando não é vantajoso?
Essas perguntas exigem filosofia, espiritualidade ou, pelo menos, honestidade para admitir que saímos do campo científico.
Conclusão: o verdadeiro “fim do princípio-Adão”
Talvez o maior mérito do artigo não seja biológico, mas cultural. “O fim do princípio-Adão” pode significar o declínio de uma visão hierárquica do mundo:
- homem acima da mulher;
- humanidade acima da natureza;
- força acima da cooperação;
- domínio acima da convivência.
Nesse sentido, o texto toca algo profundamente contemporâneo: a necessidade de reconstruir a ideia de humanidade em bases mais relacionais, menos autoritárias e mais integradoras. E talvez seja exatamente aí que ciência, filosofia e espiritualidade possam voltar a conversar – não para produzir novos dogmas, mas para compreender melhor aquilo que sempre fomos: seres incompletos, interdependentes e profundamente necessitados uns dos outros.

Muito bom. Obrigado.