Quando a prática se afasta da essência e a forma sobrevive ao conteúdo

Há algo de silenciosamente inquietante no movimento espírita contemporâneo. Não se trata de uma ruptura declarada, nem de um abandono explícito de princípios. Ao contrário: tudo parece funcionar — reuniões, palestras, obras assistenciais, rotinas institucionais. E, no entanto, cresce a sensação de que algo essencial foi sendo deslocado, suavemente, até quase desaparecer.

Duas manifestações desse fenômeno merecem atenção urgente: o chamado “Espiritismo sem espírito” e a prática de uma caridade que, ao privilegiar o material, esvazia sua dimensão mais profunda — a espiritual.

  1. O Espiritismo sem espírito

A expressão pode soar provocativa, mas descreve uma realidade cada vez mais perceptível: a dificuldade — ou mesmo a resistência — de muitos centros espíritas em lidar com a mediunidade em sua dimensão pública, educativa e investigativa.

O Espiritismo nasceu do fenômeno. Não como espetáculo, mas como objeto de estudo, de diálogo e de compreensão da realidade espiritual. A comunicação com os espíritos não era acessório — era fundamento.

Allan Kardec estruturou o método espírita justamente sobre a observação, a comparação e a análise das comunicações mediúnicas. O chamado controle universal do ensino dos Espíritos pressupunha multiplicidade, confronto e publicidade relativa dos fenômenos.

Hoje, porém, observa-se um movimento inverso.

A mediunidade foi sendo progressivamente confinada. Tornou-se privada, restrita, quase secreta. Em muitos centros, as reuniões mediúnicas são inacessíveis ao público — não apenas por prudência metodológica, o que seria compreensível, mas por uma espécie de retração institucional.

O resultado é uma geração de frequentadores que conhece a doutrina sem conhecer o fenômeno.

Sem vivência, sem observação, sem experiência direta — ainda que indireta — da comunicação espiritual, o Espiritismo corre o risco de se tornar apenas um sistema filosófico moral, descolado de sua base empírica.

E isso tem consequências profundas.

Uma delas é a perda da compreensão concreta do sofrimento espiritual após a morte. Outra, igualmente grave, é a descaracterização da função dos centros espíritas como espaços de acolhimento interexistencial — não apenas entre encarnados, mas entre encarnados e desencarnados.

A lembrança evocada por uma amiga é significativa: as sessões de desobsessão não a traumatizaram — ao contrário, educou sua percepção da realidade espiritual.

É preciso reconhecer: houve excessos no passado. Espetacularização, falta de critério, exposição indevida, culto aos médiuns. Mas a solução encontrada — o fechamento — talvez tenha ido longe demais.

Entre o abuso e o silêncio, perdeu-se o equilíbrio.

  1. A caridade que esqueceu o espírito

O segundo ponto é ainda mais delicado, diz minha amiga. A caridade material é indispensável. Alimentar, vestir, acolher — tudo isso responde a necessidades urgentes e concretas. Mas o Espiritismo sempre propôs algo além: a caridade integral.

A assistência ao corpo sem a assistência ao espírito é incompleta — e, sob certo aspecto, limitada em seus efeitos transformadores.

O Evangelho segundo o Espiritismo estabelece que a verdadeira caridade não se restringe ao gesto exterior, mas envolve a transformação moral, o consolo, a orientação e o esclarecimento.

No entanto, cresce o número de iniciativas assistenciais que, por receio de “misturar religião com ação social”, evitam qualquer abordagem espiritual: não se ora, não se lê o evangelho, não se conversa sobre sentido da vida, não se oferece consolo espiritual.

A narrativa da “sopa com evangelho” é emblemática, diz ela, com base em suas experiências. O alimento saciava a fome do corpo. Mas o encontro, a palavra, o acolhimento espiritual — esses permaneciam na memória afetiva como o verdadeiro núcleo da experiência.

Isso revela algo importante: o ser humano não busca apenas sobreviver. Busca sentido. E a caridade espírita, quando fiel à sua proposta, atua justamente nessa dupla dimensão: alivia a dor imediata e ilumina o horizonte existencial.

O que está por trás desses dois fenômenos? Em grande parte, o medo.

Medo do erro, da crítica, da exposição, do julgamento externo. Medo de parecer “místico demais” em uma sociedade que valoriza a racionalidade. Medo de repetir os equívocos do passado.

Mas, ao evitar os riscos, corre-se outro risco maior: o da descaracterização. Um Espiritismo sem mediunidade vivida — ainda que com critérios — perde sua natureza experimental.

Uma caridade sem espiritualidade — ainda que eficiente — perde sua força transformadora.

Retomar sem retroceder

A questão, portanto, não é voltar ao passado, mas recuperar o essencial com maturidade.

Isso implica:

  • Revalorizar a mediunidade como campo de estudo, acolhimento e educação — com responsabilidade, sem espetáculo, mas também sem ocultamento absoluto;
  • Reintegrar a dimensão espiritual nas ações assistenciais, respeitando contextos, mas sem negar a identidade espírita;
  • Reconhecer que o Espiritismo não é apenas uma ética — é também uma ciência de observação e uma prática de relação entre mundos.

A observação inicial de minha amiga é precisa: há um trabalho conjunto entre encarnados e desencarnados. Mas esse trabalho exige abertura.

Se os espíritos aguardam, como ela diz, que façamos a nossa parte, talvez a nossa parte hoje seja justamente essa: reabrir espaços — com lucidez, critério e coragem — para que o Espiritismo volte a ser, integralmente, o que propôs ser desde o início.

Nem apenas filosofia. Nem apenas assistência social. Mas uma experiência viva de compreensão da vida em todas as suas dimensões.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

2 thoughts on “Espiritismo sem espírito e caridade sem alma”
  1. Temos que continuar a refletir nas palavras de Jesus, referindo-se ao discípulo anônimo: “se não for de Deus, não prevalecerá”. Ou não acreditamos nisso?

  2. O professor Luís Signates escreve:

    “Excelente artigo, Wilson.

    No que tange à mediunidade, chamo a sua atenção para um fator em acréscimo: o processo de ritualização da sessão mediúnica, acompanhado da transformação da mediunidade de efeitos intelectuais em mediunidade de efeitos terapêuticos.
    A reunião de desobsessao, uma invenção brasileira, praticada a partir do livro “Desobssessao”, de André Luiz,
    na verdade um livro de liturgia, transformou a experiência mediúnica em um rito do qual não se extrai conhecimento algum e em cujo contexto os próprios espíritos não se manifestam senão sob severos padrões de comportamento e conteúdo.
    Assim, Wilson, não há apenas um espiritismo sem espíritos, mas uma vivência espiritual ausente de interação efetiva e de aprendizado.
    A perda do espiritual não se dá apenas pelo silenciamento dos espíritos, mas também pela estruturação ritual de suas manifestações.
    Tenho a desconfiança de que isso se deu de caso pensado. Um agrupamento de espíritos, articulados nos planos espiritual e terreno, aparentemente inspirados na experiência católica, agiram para obter a hegemonia do espiritismo brasileiro. E o fizeram com extrema eficiência.
    Mobilizaram instituições políticas específicas, as federações sob o rígido controle da FEB, e promoveram a privatização e a ritualizacao da experiência mediúnica, inclusive restringindo-a ao interior privado dos centros espíritas.
    Sem reuniões familiares, sem exercício público da mediunidade e com uma liturgia estruturada nos menores detalhes, os espíritos não autorizados foram integralmente silenciados, em nome de uma pseudoterapia de diálogos minutados com desencarnados em sofrimento, como se minutos de conversação leiga e religiosa fosse capaz de alterar a psiquê em sofrimento de almas, cujas angústias se originam não raro em conflitos vividos por encarnações inteiras.
    Não tenho dúvidas de que a mediunidade espírita hoje é um mero rito de manutenção emocional dos médiuns. Uma arte de domínio que foi capaz de excluir os espíritos dentro da própria vivência mediúnica.
    E, por fim, para terminar, Wilson, um alerta que considero relevante: os agrupamentos laicos e progressistas não foram capazes de questionar e superar isso. Até onde acompanhei, a mediunidade nesses grupos não difere daquela que se estandardizou no espiritismo tradicional. Mas, isso é algo que eu tenho tentado explicar de forma diferente, pois outra é a chave.
    Abraço e desculpe o texto excessivo.”

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