Entre o telescópio de Kardec e o olhar do Roman, o Universo tornou-se imensamente maior — e nossas perguntas também deveriam ter crescido.

 

O telescópio espacial Nancy Grace Roman vai observar cerca de um bilhão de galáxias.
Sim, galáxias. Não estrelas. Galáxias.

 

Mesmo em tempos de números astronômicos que já não nos assustam tanto, esse dado ainda impressiona. Mas o objetivo do Roman vai além de produzir imagens bonitas do cosmos. Ele foi projetado para ajudar a desvendar dois dos maiores mistérios da ciência atual: a matéria escura e a energia escura.

Sabemos que elas existem pelos efeitos que causam, mas sua natureza profunda continua um enigma. E aqui está o paradoxo: quanto mais a ciência avança, mais precisamente ela consegue medir aquilo que ainda desconhece.

E o espiritismo com isso? Talvez tenha muito mais a ver do que imaginamos.

Kardec começou olhando longe

Com o tempo, o espiritismo foi se concentrando cada vez mais nas dores e dilemas do dia a dia: reencarnação, família, mediunidade, obsessão, desencarnação. Tudo isso é importante, claro. Mas Allan Kardec começou de outro lugar.

Ele começou pelo Universo.

Basta ver a estrutura de O Livro dos Espíritos. Antes de mergulhar nas questões morais, Kardec pergunta por Deus, pela matéria, pelo espírito, pela criação dos mundos, pela pluralidade dos mundos habitados. Isso não é um detalhe. É uma escolha filosófica clara: o homem não pode ser compreendido fora da realidade maior da qual faz parte.

Em A Gênese, ele foi ainda mais longe, buscando integrar astronomia, geologia e cosmologia ao pensamento espírita. Para Kardec, não havia duas realidades — uma para a ciência e outra para o espírito. Havia uma só, e ela precisava ser compreendida em conjunto.

Claro, o céu está aí. Mas a imagem que o século XIX tinha dele desapareceu.

Kardec morreu em 1869. Ele não conheceu o Universo em expansão, nem as galáxias como as entendemos hoje. Não soube do Big Bang, da radiação cósmica de fundo, dos buracos negros, da matéria escura, da energia escura, das ondas gravitacionais ou dos milhares de exoplanetas já descobertos.

O Universo ficou imensamente maior, mais velho e mais complexo. E, curiosamente, mais misterioso.

A ciência fez o que se esperava: iluminou muitas áreas. Mas também revelou novas sombras. Cada grande descoberta abriu portas para novas perguntas. Descobrimos bilhões de galáxias, mas isso só aumentou nossa curiosidade sobre o que há além. Encontramos planetas por toda parte, mas continuamos sem saber se há vida neles. Percebemos que o Universo se expande, e ainda mais: que essa expansão está acelerando — e não sabemos exatamente por quê.

É como se, quanto mais acendemos as luzes, maior a sala parecesse.

Não coloquemos o espírito dentro da matéria escura

Diante de tantos mistérios, surge uma tentação: buscar respostas prontas nas antigas formulações espíritas.

A matéria escura seria o fluido cósmico universal? A energia escura seria uma manifestação espiritual? Os espíritos viveriam em outras dimensões?

Não sabemos.

E dizer “não sabemos” talvez seja uma das atitudes mais alinhadas com o método que Kardec tentou estabelecer.

Matéria escura não prova a existência do espírito. Energia escura não prova Deus. Exoplanetas não confirmam a existência de civilizações extraterrestres. A imensidão do Universo não valida a reencarnação.

Usar o que a ciência ainda não explica como prova das nossas crenças é apenas preencher lacunas com convicções. E isso é exatamente o oposto do que se espera de uma filosofia que se diz progressiva.

O desconhecido deve continuar sendo desconhecido até que tenhamos meios reais de conhecê-lo.

Talvez tenhamos feito, por muito tempo, a pergunta errada: “O que a ciência moderna confirma em Kardec?”

Essa pergunta nos coloca numa busca eterna por frases antigas que possam ganhar novos significados. É quase um jogo de caça ao tesouro: descobre-se algo na ciência e logo aparece alguém dizendo: “Kardec já dizia isso”.

Isso empobrece tanto a ciência quanto Kardec. A pergunta mais fecunda seria outra: “O que o conhecimento atual do Universo nos obriga a repensar no espiritismo?”

A diferença é sutil, mas profunda. Na primeira, queremos preservar respostas. Na segunda, estamos dispostos a revisar problemas. E é aí que uma doutrina realmente se torna viva.

Um telescópio e um método

O Nancy Grace Roman é mais do que uma máquina científica. Ele pode se tornar, para nós, um símbolo.

Ele vai mapear galáxias, estudar a distribuição da matéria, investigar a expansão cósmica e procurar por sistemas planetários. Talvez confirme muitas teorias atuais. Talvez encontre anomalias. Talvez descubra algo que ninguém imaginou.

Diante disso, qual deveria ser a postura espírita? Uma palavra: acompanhar.

Não correr para explicar. Não buscar uma mensagem mediúnica que dê a resposta pronta. Não adaptar às pressas uma frase de Kardec aos termos da física moderna.

Acompanhar, estudar, compreender. E depois perguntar: o que isso significa para uma filosofia que pensa matéria, espírito, vida e evolução?

Kardec não faria cosmologia no lugar dos cosmólogos. Mas tudo indica que ele gostaria de saber o que eles estão descobrindo.

No século XIX, a ideia de mundos habitados era uma grande questão filosófica. Camille Flammarion, próximo de Kardec, dedicou-se muito a isso.

Hoje, a pergunta ganhou outra escala.

Já conhecemos milhares de planetas fora do Sistema Solar. Sabemos que sistemas planetários são comuns. Encontramos mundos quentes, gelados, gigantes, pequenos, próximos ou distantes de suas estrelas — e até planetas que vagam soltos pelo espaço.

Isso não prova que sejam habitados. Muito menos que há espíritos neles. Mas transforma radicalmente o cenário da pergunta.

E se encontrarmos vida extraterrestre — especialmente vida inteligente?

Será tentador dizer: “Kardec tinha razão”. Mas essa seria a parte menos interessante da descoberta.

O que viria depois seria muito maior: como pensar a consciência em formas biológicas radicalmente diferentes das nossas? A evolução espiritual depende de organismos como os humanos? O que significa individualidade, moralidade e inteligência em histórias evolutivas completamente independentes?

Quando dizemos “espírito”, estamos falando de algo universal — ou ainda pensamos nele à imagem do homem terrestre?

Kardec não poderia responder a essas perguntas. Seu tempo não permitia formulá-las como nós podemos hoje.

Atualizar perguntas

Uma doutrina progressiva não é aquela que troca palavras antigas por modernas. Não adianta substituir “fluido” por “energia”, ou colocar “quântico” na frente de conceitos antigos.

O verdadeiro avanço talvez seja outro: atualizar as perguntas.

Cada época interroga a realidade com as ferramentas que tem. Kardec interrogou o Universo do século XIX. Nós temos outro Universo diante dos olhos — ainda que provisório.

Por que nossas perguntas permaneceriam as mesmas?

A cosmologia contemporânea nos devolve algo valioso: o sentimento do mistério. O espiritismo nasceu dizendo que a realidade não se reduz ao que os sentidos captam. A física, por caminhos próprios, também descobriu que o visível é apenas uma parte da história.

Não confundamos as coisas. Matéria escura não é mundo espiritual. O invisível da física não é o invisível do espiritismo.

Mas há uma afinidade filosófica: o real pode ser maior do que aquilo que imediatamente percebemos.

Isso deveria nos trazer menos certezas triunfalistas e mais humildade. Talvez a grande contribuição da cosmologia ao pensamento espiritualista não seja oferecer provas, mas devolver-nos a consciência dos limites do conhecimento.

Kardec olhava para o céu. E nós?

Um telescópio vai observar um bilhão de galáxias. Vale repetir: um bilhão. Talvez descubramos algo sobre a matéria escura. Talvez entendamos melhor a energia escura. Talvez encontremos novos planetas. Talvez surja algo que ninguém esperava.

E continuaremos aqui, neste pequeno planeta, tentando compreender o que é a inteligência, a consciência, a vida e a morte.

É difícil acreditar que essas duas coisas — a imensidão do cosmos e as perguntas sobre o espírito — não tenham nenhuma relação.

Se o espiritismo fala do espírito no Universo, precisa se interessar pelo Universo onde esse espírito existe.

Não para submeter a astronomia às suas crenças. Não para exigir que a cosmologia prove suas ideias. Nem para transformar cada mistério científico em confirmação doutrinária.

Mas para fazer o que estava na origem do projeto kardeciano: observar o conhecimento humano, incorporar o que se estabelece, abandonar o que se tornou insustentável, e manter abertas as perguntas que ainda não podemos responder.

Kardec olhava para o céu porque compreender o Universo fazia parte, para ele, da tentativa de compreender o homem. Quase 160 anos depois, nossos telescópios enxergam muito mais longe.

Talvez esteja na hora de perguntarmos se o nosso pensamento também acompanhou essa distância. Porque uma doutrina verdadeiramente progressiva não precisa ter medo de um Universo que muda.
Ela só precisa ter coragem de continuar olhando.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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