Existe uma verdade diante da qual desaparecem todas as diferenças: a trajetória humana é finita, embora se desenrole dentro da infinitude.

 

Todos passam. Os cantores e os poetas. Os artistas e os artesãos. Os cientistas e os agricultores. Os presidentes e os operários. Os milionários e os pobres. Os anônimos e os famosos. Os homens e as mulheres que ocupam as manchetes dos jornais, assim como aqueles cujos nomes jamais serão registrados pela história.

Há democracias construídas pelos homens. Há uma, porém, que independe de governos, leis ou ideologias: a democracia do tempo. Diante dela, todos comparecemos em absoluta igualdade.

A marcha do tempo não distingue currículos, patrimônios, ideologias ou prestígio. Ela segue seu curso com uma serenidade quase impessoal, lembrando que toda biografia, por mais extraordinária que pareça, possui um último capítulo.

Vivemos, entretanto, como se essa verdade dissesse respeito apenas aos outros. A morte sempre parece distante, inconveniente, quase uma indiscrição. Nossa cultura tornou-se especialista em escondê-la. Ela desapareceu das conversas familiares, dos ambientes públicos e até mesmo das reflexões filosóficas mais populares. Em seu lugar, cultivamos a ilusão de uma juventude permanente e de um presente indefinidamente prolongado.

Mas basta observar uma fotografia de cem anos atrás. Quase ninguém daqueles rostos permanece entre nós. Daqui a cem anos, acontecerá exatamente o mesmo com a fotografia da nossa geração. É uma constatação simples, quase banal, mas de enorme profundidade. Somos uma geração de passagem.

Essa percepção produz dois efeitos opostos.

Para alguns, conduz ao desânimo. Se tudo termina, perguntam, qual o sentido do esforço, da construção, dos afetos e das realizações?

Para outros, exatamente o contrário. A consciência da transitoriedade confere valor ao instante. Cada gesto de bondade torna-se mais significativo. Cada reconciliação adquire urgência. Cada oportunidade de aprender passa a ter um peso que talvez não tivesse se imaginássemos um tempo infinito à nossa disposição.

O Espiritismo propõe uma terceira leitura, que amplia ambas as perspectivas.

A morte não seria o encerramento da história pessoal, mas apenas o encerramento de um capítulo. O corpo conclui seu ciclo; a consciência prossegue. Não caminhamos para o nada, mas para outra etapa da existência. A roda da vida continua girando, não como repetição mecânica, mas como processo educativo.

Essa visão modifica profundamente o significado da igualdade humana.

Não somos iguais porque todos morreremos. Somos iguais porque todos participamos da mesma aventura evolutiva. Hoje desempenhamos determinados papéis; amanhã, outros completamente diferentes. Aquele que exerce autoridade poderá aprender a obedecer. Quem hoje ensina talvez necessite aprender. O rico poderá experimentar a pobreza; o pobre, a abundância. A alternância das experiências torna-se um dos instrumentos da educação do Espírito.

É por isso que a vaidade parece tão frágil quando observada numa escala maior.

Os títulos permanecem nos arquivos, as homenagens nas paredes e as fortunas mudam de proprietário. Os monumentos deterioram-se. Até as civilizações desaparecem ou se transformam. O que permanece é algo muito menos visível: a qualidade moral que cada consciência incorporou ao longo da própria caminhada.

Talvez por isso as grandes tradições espirituais tenham insistido tanto na transformação interior. Não porque desprezassem a cultura, a ciência ou o progresso material, mas porque percebiam que tudo isso acompanha apenas parcialmente a viagem humana. O conhecimento pode ser acumulado em bibliotecas; a inteligência pode construir cidades; a tecnologia pode remodelar o planeta. Entretanto, o caráter continua sendo uma conquista estritamente pessoal.

Vivemos uma época fascinante. Nunca produzimos tanta informação, tantos recursos tecnológicos e tantas possibilidades de prolongar a vida biológica. Ainda assim, permanece intacta a velha condição humana: todos somos viajantes.

Há uma força silenciosa que atravessa toda existência. É ela que alimenta as ilusões da juventude, sustenta os sonhos da maturidade e acompanha o homem até os instantes em que a vela da vida começa lentamente a se apagar. É a força que impele ao fazer, ao construir, ao amar, ao errar, ao recomeçar. É ela que nos lança ao mundo da experiência.

Curiosamente, ao olhar para trás, muitos chegam à velhice com a impressão de que realizaram menos do que haviam imaginado. Os projetos foram menores que os sonhos. As obras ficaram aquém dos planos. As transformações do mundo pareceram discretas diante dos ideais que um dia incendiaram a juventude.

Mas talvez essa seja uma das maiores ilusões da própria existência.

Medimos a vida pelo que construímos do lado de fora e esquecemos aquilo que lentamente se edificou por dentro. Contabilizamos cargos, patrimônios, livros escritos, empresas fundadas, filhos criados, viagens realizadas e reconhecimento alcançado. A vida, porém, parece utilizar outra contabilidade. Ela registra menos aquilo que acumulamos do que aquilo em que nos transformamos. Guarda as experiências vividas, as escolhas feitas, as renúncias silenciosas, os afetos cultivados, os erros compreendidos e a lenta lapidação do caráter.

Sob essa perspectiva, ninguém vive pouco.

Há quem transforme uma existência aparentemente comum em extraordinária escola de paciência, de coragem ou de generosidade. Outros acumulam feitos grandiosos diante da sociedade, mas chegam ao fim quase tão moralmente inacabados quanto partiram.

A filosofia espírita convida a inverter a pergunta. Em vez de indagar apenas “o que realizei?”, talvez seja mais fecundo perguntar: “Em que me transformei enquanto realizava?”

Porque a verdadeira força que move a existência talvez nunca tenha sido produzir monumentos para o mundo, mas construir, pouco a pouco, o próprio Espírito.

É por isso que, quando a vela da vida finalmente se extingue, talvez ela não represente o fim de uma obra interrompida, mas a conclusão de mais um capítulo de um aprendizado que prossegue além da matéria.

Essa talvez seja a maior democracia existente. Não depende de eleições, partidos ou sistemas políticos. O tempo distribui igualmente sua passagem a todos. Ninguém recebe privilégios diante dele.

A filosofia espírita acrescenta, porém, um detalhe decisivo: essa igualdade não termina no túmulo. Ela continua na grande escola da existência, onde cada encarnação representa apenas uma etapa de um aprendizado muito mais vasto.

É curioso perceber que passamos a vida inteira tentando vencer o tempo, quando talvez a verdadeira sabedoria consista em aprender com ele. O tempo não é nosso inimigo. É o grande educador da existência. Não apenas envelhece os corpos; amadurece consciências.

Se assim for, a pergunta essencial deixa de ser quanto tempo viveremos. A questão passa a ser outra: o que estamos fazendo com o tempo que recebemos?

Na grande democracia do tempo, todos perdemos o que possuímos. Apenas conservamos aquilo que nos tornamos.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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