A gente aprendeu com Freud que a linguagem nunca é neutra. Ela é sintoma.
 
Um artigo do El País me fez coçar a cabeça. Será que o problema é a expressão ou o jeito que a usamos?

 

Você já percebeu como certas palavras parecem estar em todos os lugares? “Sinergia”, “disruptivo”… e a queridinha dos currículos e redações: “pensamento crítico”.

Parece inofensivo, né? Mas o filósofo Diego S. Garrocho, num artigo do El País, largou uma bomba: ele é contra o pensamento crítico.

Calma, não saia xingando. Ele não quer que a gente pare de pensar. O alvo dele é outro: o uso automático, quase mágico, dessa expressão. Como se repeti-la já fosse prova de inteligência.

Garrocho chama isso de shibboleth – uma senha linguística que identifica quem é do clube e quem não é. E, confesso, ele tem um ponto.

Mas… será que a solução é simplesmente abolir a expressão? Ou o problema está em outro lugar? Vamos explorar isso sob três olhares: o da psicologia, da comunicação e do Espiritismo.

Psicologia:
quando falar é se revelar

A gente aprendeu com Freud que a linguagem nunca é neutra. Ela é sintoma. Quando você fica repetindo “pensamento crítico” como um mantra, pode estar:

  • Evitando o trabalho de pensar por conta própria
  • Acalmando a ansiedade diante de um mundo complexo
  • Sinalizando que pertence a um grupo (o time dos “espertos”)

Isso vira o que eu chamo de pensamento vicário: um pensamento de segunda mão, emprestado, que substitui a reflexão real por um selo de pertencimento.

Nesse sentido, o “pensamento crítico” vira um placebo psicológico – a palavra dá uma sensação de rigor, mas não exige esforço nenhum.

Mas atenção: a psicologia moderna também mostra a importância da metacognição (pensar sobre o próprio pensamento). Dar um nome para o que a gente quer fazer – “agora vou pensar criticamente” – pode ser o primeiro passo para fazer de verdade.

O problema, portanto, não é ter a etiqueta. É a etiqueta vazia.

Comunicação:
a inflação das palavras

Quem estudou Marshall McLuhan sabe: os meios e as formas moldam o que a gente pensa. Quando uma palavra vira moda, ela sofre inflação semântica:

  • Quanto mais usada, menos ela significa.
  • Quanto mais repetida, mais automática se torna.
  • Quanto mais valorizada, mais simula profundidade.

Resultado: o discurso substitui o pensamento. Você fala bonito, mas não diz nada.

Garrocho acerta em cheio ao denunciar o “pensamento crítico” como ornamento retórico. Virou selo de qualidade em universidades e empresas, independentemente da prática real.

Mas ele comete um deslize: sugerir que o simples uso da expressão já prova sua ausência. Isso seria como dizer que falar de ciência invalida o método científico. Não cola, né?

Espiritismo:
por que nomear o método é essencial

Aqui a conversa fica ainda mais interessante. Porque o Espiritismo, desde Allan Kardec, explicitamente exige pensamento crítico. Não como clichê – como método.

Kardec estruturou sua proposta em três pilares:

  • Exame racional rigoroso
  • Comparação universal das comunicações (o famoso CUEE)
  • Recusa de qualquer autoridade dogmática

Ou seja: o Espiritismo criou uma pedagogia da crítica. E nessa pedagogia, você precisa nomear o que está fazendo. Porque se você não nomeia, o método corre o risco de virar hábito cego.

Pense assim:

Quem pratica espontaneamente pode não falar em “pensamento crítico”. Mas quem ensina precisa usar a palavra.

Sem essa explicitação, o pensamento dissolve em tradição, crença ou autoridade. E o Espiritismo combate isso desde o primeiro livro.

Então, negar a legitimidade da expressão “pensamento crítico” seria, no fundo, favorecer aquilo que Kardec mais criticava: a adesão sem exame.

Clichê x Conceito:
onde está o verdadeiro perigo

A crítica de Garrocho revela um fenômeno real: conceitos viram clichês. Acontece com “amor”, “liberdade”, “empatia”… e com “pensamento crítico”.

Mas precisamos separar as coisas:

  • conceito continua válido.
  • uso banalizado é que é problemático.

Abrir mão da palavra não resolve nada. Só empurra o problema para debaixo do tapete. O risco maior não é falar de pensamento crítico. É viver numa cultura onde:

🔹 palavras substituem processos
🔹 rótulos substituem práticas
🔹 discurso substitui experiência

Lembrete espírita (com as palavras do mestre):
“Submetei todas as comunicações ao controle da razão e da lógica; rejeitai sem hesitar tudo o que for contrário ao bom senso.” – Allan Kardec

O Espiritismo não apenas aceita o pensamento crítico – ele exige. A fé, para Kardec, só é legítima quando pode encarar a razão face a face.

Conclusão:
o perigo silencioso

O artigo de Garrocho não é, no fundo, contra o pensamento crítico. É contra sua caricatura. E a provocação dele nos deixa um alerta essencial: não confunda o abuso da linguagem com a inutilidade do conceito.

Porque existe um risco ainda maior, mais silencioso. Quando a gente para de nomear o pensamento crítico, corre o risco de também parar de praticá-lo conscientemente.

Entre o jargão e o método, entre o clichê e a investigação, está o verdadeiro desafio do nosso tempo.

Não se trata de abandonar as palavras.
Trata-se de devolver a elas o seu peso.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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