Entre o método de Allan Kardec e a acomodação doutrinária irresponsável no movimento atual regido pela Feb.

 

Uma recente comunicação institucional da Federação Espírita Brasileira, difundida em vídeo nas redes sociais, reacendeu um debate antigo — e sempre latente — no interior do movimento espírita: qual é, afinal, o papel da mediunidade e da investigação na atualidade da doutrina?

A mensagem afirma, em síntese, que a evocação de espíritos, outrora necessária no tempo de Allan Kardec, já não se faria necessária hoje. Argumenta ainda que o conteúdo trazido pela espiritualidade (leia-se pelos médiuns Chico Xavier, Divaldo Franco e outros reconhecidos “oficialmente”) seria suficiente para orientar o pensamento espírita contemporâneo, ao passo que a reunião mediúnica teria como função primordial o acolhimento de espíritos necessitados.

Seria uma mensagem oportuna se se tratasse de uma orientação prudencial, motivada pelo desejo de evitar abusos ou práticas descontroladas. Mas uma leitura atenta revela implicações mais profundas — e potencialmente problemáticas — no plano epistemológico da doutrina.

O Espiritismo como método — e não como sistema fechado

Desde sua origem, o Espiritismo se apresentou menos como um corpo de verdades prontas e mais como um método de investigação da realidade espiritual. Em O Livro dos Médiuns, Kardec estabelece a evocação como instrumento legítimo e necessário para o estudo dos fenômenos:

“A evocação oferece a vantagem de se poder interrogar diretamente o espírito sobre as coisas que nos interessam.” (KARDEC, 1861)

Esse procedimento não era acessório. Ele constituía o núcleo operacional do que o próprio codificador chamou de controle universal do ensino dos Espíritos, baseado em multiplicidade de fontes mediúnicas, comparação de respostas, análise crítica e racional, e rejeição do argumento de autoridade.

Nesse contexto, a evocação não era apenas prática mediúnica — era método de investigação em construção.

Quando a investigação cede lugar à suficiência

A ideia de que “já possuímos conteúdo suficiente” introduz uma ruptura silenciosa, mas decisiva. Se o conhecimento é considerado suficiente, a investigação perde centralidade, o questionamento se torna secundário e o futuro deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser mera aplicação do já sabido.

Essa lógica aproxima o Espiritismo de sistemas dogmáticos que ele próprio criticou ao longo do século XIX. Em A Gênese, Kardec é categórico ao afirmar o caráter progressivo da doutrina:

“O Espiritismo marcha com o progresso e jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro sobre um ponto, ele se modificará nesse ponto.” (KARDEC, 1868)

A noção de suficiência, portanto, não encontra respaldo direto na estrutura teórica kardeciana. Ao contrário, ela a tensiona.

A redefinição da reunião mediúnica

Outro ponto central da mensagem institucional é a redefinição da reunião mediúnica como espaço prioritário de acolhimento espiritual. Uma ideia obtusa que reproduz Emmanuel e a centralidade da religião espírita, no criticável exemplo do triângulo cujo vértice superior é a religião.

Sem dúvida, a dimensão assistencial sempre esteve presente no Espiritismo. No entanto, reduzir a reunião mediúnica a essa função implica uma mudança significativa: a mediunidade deixa de ser instrumento de conhecimento e torna-se predominantemente prática de caridade espiritual.

Essa transformação altera o equilíbrio original proposto por Kardec, no qual conviviam o estudo e experimentação, a assistência e esclarecimento e a observação e análise.

A exclusão progressiva do elemento investigativo empobrece a prática mediúnica, deslocando-a de um campo epistemológico para um campo exclusivamente moral.

O retorno silencioso do messianismo

Há um elemento ainda mais sutil — e talvez mais preocupante — na interpretação contemporânea da prática espírita: a ideia de que o progresso da doutrina dependeria exclusivamente dos chamados “Espíritos superiores”, relegando aos homens um papel secundário, quase passivo.

Essa concepção manifesta-se de diferentes formas: na desconfiança crescente em relação à produção mediúnica contemporânea, na recusa tácita da investigação ativa por encarnados e na expectativa difusa de um novo grande sistematizador, uma espécie de sucessor de Allan Kardec.

O resultado é paradoxal: uma doutrina que nasceu sob o signo da racionalidade investigativa passa a conviver com uma espécie de messianismo difuso, ainda que não nomeado.

Entre a autoridade dos Espíritos e a responsabilidade dos homens

Em sua formulação original, Kardec jamais propôs a substituição do pensamento humano pela autoridade espiritual. Ao contrário, insistiu que os Espíritos não são infalíveis, suas comunicações devem ser submetidas ao crivo da razão e o progresso depende da interação entre os dois planos — espiritual e humano.

O método do controle universal pressupõe essa dinâmica: não basta receber — é preciso comparar, analisar e julgar criticamente. Ou seja, o Espiritismo não delega o conhecimento — ele o constrói.

A espera de um “novo Kardec”

A ideia de que não haveria hoje homens capacitados para dar continuidade ao trabalho investigativo conduz a uma consequência inevitável: a espera. Espera-se um novo organizador, um novo intérprete autorizado e um novo momento excepcional da história. Espera-se, pois, um novo “messias espírita”.

Essa expectativa entra em conflito com um dos princípios fundamentais da doutrina: o da perfectibilidade humana. Se o espírito progride continuamente, por que admitir que não existam hoje inteligências capazes de investigar, questionar e ampliar o conhecimento?

Ao negar essa possibilidade, cria-se uma contradição interna: afirma-se o progresso do espírito, mas nega-se sua expressão concreta no presente.

O risco desse processo é claro: desloca-se o eixo do Espiritismo, de uma racionalidade ativa, baseada na investigação para uma fé expectante, baseada na autoridade futura.

Esse deslocamento não elimina o discurso racional — mas o esvazia de sua função prática. A razão permanece como linguagem; a crença assume o comando como atitude.

Talvez o efeito mais profundo dessa mentalidade seja a produção de um Espiritismo sem protagonistas humanos. Se os Espíritos já disseram o essencial, os homens não são confiáveis para investigar e o futuro depende de uma intervenção excepcional, então resta ao movimento apenas conservar, repetir e administrar o legado.

Mas essa não foi a proposta original. Kardec não fundou uma tradição de repetidores — mas de investigadores.

Conclusão: entre a pergunta e a resposta

O Espiritismo nasceu como pergunta — não como resposta definitiva. Sua força histórica residiu na coragem de investigar o invisível com os instrumentos da razão e da observação.

Quando se afirma que já sabemos o suficiente, e quando se espera que apenas instâncias superiores — espirituais ou futuras — conduzam o progresso, corre-se o risco de transformar uma doutrina progressiva em um sistema estático; uma filosofia de investigação em uma crença de confirmação.

A questão que permanece, portanto, não é apenas doutrinária, mas metodológica — e, em última instância, intelectual: até que ponto estamos dispostos a continuar perguntando — e a assumir a responsabilidade pelas respostas?

Referências

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese. 2. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2018.

PIRES, José Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Edicel, 1964.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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