O amadurecimento do pensamento na escrita de Dora Incontri

RESENHA

Livro: Kardec para o século 21

Formato 18 X 24cm, capa dura, cores

322 págs.

Editora Comenius, Bragança Paulista, SP

O notável escritor Monteiro Lobato, hoje um tanto ofuscado pelo racismo apontado em algumas de suas obras, dizia lá atrás que escrever é fácil, o difícil é passar o pente fino. A notabilidade dos grandes escritores se deve, também, à sua busca incessante pelo primor do texto, pelo refinamento capaz de expressar ideias de modo quase absoluto, mas, também, determinar a marca do estilo único, próprio, pessoal. Um trabalho insano e inesgotável, que cessa apenas quando as forças físicas encontram o seu inevitável declínio.

O texto sucede as ideias, mas os dois andam juntos em relação ao progresso, pois, assim como as ideias avançam, num processo de mudança dir-se-á natural no ser humano, também a escrita o faz, uma vez que haverá sempre um modo, uma forma melhor de representar pela escrita as ideias.

Este fato sobressalta aos olhos do leitor no novo livro da Dora Incontri. Saudado com efusão pela crítica e admiradores da pedagoga, Kardec para o século 21 foi colocado a público na noite do dia 19 de março último, na Livraria da Vila localizada no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Note-se, o pacote chegou completo, numa edição primorosa de dar orgulho a qualquer autor.

Da jovem dos anos 1980 e seus dois primeiros livros de poesia, um deles mediúnico sob minha responsabilidade editorial, à intelectual madura quarenta e poucos anos depois, temos um período e um percurso em que, sob elogios de admiradores e as refregas dos embates com a crítica mais exigente, Dora foi amealhando conhecimentos, títulos acadêmicos e experiências pedagógicas enriquecedoras, que a trazem ao primeiro quarto do século 21 com uma escrita segura, rica, objetiva, na profusão das fontes que a sustentam.

O livro – Kardec para o século 21 – é, por tudo isso, o novo cartão de visitas em letras douradas que Dora oferece ao leitor destes tempos de inteligências artificiais, especialmente o adepto do espiritismo, contendo capítulos que são quase cartas doutrinário-literárias tematizadas, numa espécie da colcha de retalhos muito bem costurados.

A autora tenta – porque todo esforço de entender o mundo e a vida é sempre uma tentativa – focalizar Kardec e seu pensamento no momento histórico que lhe é próprio e caminhar com ele pelo tempo enfeixado neste mais de século e meio de sua aparição, posicionando-o e reposicionando-o a cada fase, até desembarcar neste primeiro quarto do século 21, onde o pensamento do fundador do espiritismo não se restringe mais e apenas aos temas e princípios iniciais da doutrina, eis que se expande obrigatoriamente ao momento e às exigências da atualidade contextual. Está Dora dizendo, na segurança da sua ousadia, que o espiritismo, para ser o de ontem e o de amanhã não prescinde dos avanços de hoje no campo do conhecimento e da ciência, da tecnologia e das ciências sociais. Absolutamente! Mais, o seu envolvimento com as necessidades e conquistas sociais atuais intensivamente demandadas se mostra tão necessário quanto obrigatório. Kardec deveria ser o homem de seu tempo, e o foi, como devem ser deste tempo atual os seus seguidores, pois o ser humano de seu tempo possui o arrojo do presente e o destemor do futuro.

Dora é corajosa sob vários aspectos, a ponto de ser até em algum grau pretenciosa. Por que não? Vide, por exemplo, o título do livro: Kardec para o século 21. Tem aí alguma coisa de pretensão, há de pensar o leitor, antes de se reacomodar na poltrona após o domínio do conteúdo em sua elástica dimensão. Essa coragem se expande nas declarações sobre seu pensamento em questões delicadas, que muitos passariam ao largo, para deixar claro o seu amadurecimento em termos de adesão ao livre pensar, à independência com que se movimenta num ambiente um tanto hostil do religiosismo estacionário.

No livro todo se vislumbra o que se pode chamar de muitos vieses aos quais a autora se lança para registrar sua visão de mundo enquanto cultora dos ensinos de Kardec. Na ponta de seu cursor a deslizar pela tela estão opiniões, modos de ver e sentir, mas também o compromisso com o embasamento em fontes importantes de hoje e de ontem, da ciência e da filosofia, psicologia e sociologia, dos muitos campos pelos quais passeia. Neste diapasão, a coragem de Dora se encorpa e adquire força para confirmar que tem ela em Kardec o mestre insuperado aqui, embora desatualizado ali; aqui, nas bases monolíticas de uma doutrina a caminho do bicentenário; ali, nas questões complementares, periféricas ou menores, superadas pelo progresso, inevitável, mas bem-vindo.

Numa visão de tempo enquanto duração, um livro assim já nasce no passado, apesar de sua natural aspiração à intemporalidade, que neste caso é também imortalidade. Por isso, é incompleto, pois deixa lacunas temáticas, mas ao mesmo tempo é surpreendente, pois avança onde ainda se tateia. Daí seus 15 capítulos, todos, absolutamente todos, partindo de questionamentos, que em si mesmos são dúvidas e ao final respostas. É, por isso, um livro adequado aos pensantes de hoje, que somos feitos de e habitantes do passado, decididamente atirados, na inconsciência de cada momento, ao futuro.

A incompletude salutar que há na autora, poeta e pedagoga Dora Incontri cede lugar a uma outra ousadia na derradeira página do livro, cuja autoria atribui a Allan Kardec: Mensagem final psicografada, datada de 26 de outubro de 2023. Quer-se crer, já com o livro a caminho da editoração. Vejo aqui o ressurgir da mesma jovem de 18 anos com suas poesias à mão, o olhar convicto e grave, de quem tem dúvidas e ao mesmo tempo não duvida. Eis seu novo ato de coragem que, aos 18 anos, já demonstrava: oferecer, como fecho de sua escrita hoje primorosa a mensagem que, por certo, sabe, levantará questionamentos. Se não houver como garantir que o autor é mesmo Kardec, tem Dora a seu favor o dado oferecido por ele mesmo, quando questionava se a mensagem era digna daquele a quem era atribuída.

Que o digam os leitores que já leram e os que virão.

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