Coletivo vai publicar todos os livros de Kardec com o selo ´edição antirracista´

O livro dos espíritos está prometido para este mês de abril e o molde a ser utilizado é o mesmo de O evangelho segundo o espiritismo.

Assiste-se, com verdadeira vergonha alheia, para utilizar da expressão da moda, ao desfile de pronunciamentos de completo descaso para com o espiritismo e seu fundador, Allan Kardec, sejam feitos em lives, sejam escritos aqui e ali. O mais estarrecedor desses pronunciamentos, por isso mesmo, é o que expressa a arrogância e a prepotência dos responsáveis pela edição interpolada, ao afirmar que todos os livros de Kardec receberão igual tratamento, ou seja, serão publicados com as mesmas tintas vermelhas que aparecem na expressão ANTIRRACISTA de O evangelho segundo o espiritismo. Os autores desse ato estarrecedor estão tão convictos dessa dolorosa missão autoatribuída que afirmam não se intimidar com nenhuma crítica e que nada os vai parar.

Mas é preciso colocar às claras que o projeto de interpolação dos livros de Allan Kardec, cujo primeiro, O evangelho segundo o espiritismo, foi lançado no final de 2022, tendo ganhado ampla divulgação no primeiro trimestre de 2023, tal projeto teve início muito tempo atrás, quando o coletivo EàE iniciou as conversas a este respeito. A ideia era mais agressiva ainda, pois se tinha por certo que seriam feitas adulterações explícitas no texto, modificando as palavras de Kardec consoante os desejos do momento. Era este o objetivo pretendido, que só não se empreendeu por um lampejo isolado de bom-senso, uma vez que de qualquer maneira a obra foi adulterada.

A ousada atitude que fere, como se sabe, os direitos morais do autor e do tradutor está baseada em argumentos falaciosos e conta com o silêncio de alguns e, pasmem, a concordância de outros, sob o entendimento de que o racismo que atinge os negros, principalmente no Brasil, justifica ou, pelo menos, atenua retalhamento provocado no texto de Kardec. Estamos, assim, diante de um quadro em que o desrespeito sentencia a obra a ser violada por quem quiser e quando quiser.

Vejamos.

O histórico do racismo brasileiro, hoje corretamente apontado como racismo estrutural, portanto uma violência perpetrada e mantida desde a colonização do país pelos portugueses e agravada com a escravidão, esse histórico justifica que se aja com violência sobre o patrimônio espírita? A conceber que sim, estaremos diante da inversão da máxima de que um mal não justifica outro, ou seja, independentemente do grau que se queira atribuir a uma violência em relação a outra e dos fatores envolvidos na violência que se quer conter para extinguir. Em vista disso, talvez se justifique, absurdamente, que direitos humanos quaisquer sejam violados para compensar direitos humanos não atendidos. E assim teremos de volta o “olho por olho, dente por dente” do passado sombrio.

É preciso, também, questionar se a violentação textual cometida na obra espírita extinguirá ou apagará a história que está por trás dos fatos, tornando diferente, positivo, o que está exposto e visto hoje como negativo. E mais, colocar na boca de Kardec o que ele não pensou nem disse, reduz ou atenua a dor, o sofrimento, a angústia dos homens e mulheres negros no Brasil? Substituir a verdade que mostra o homem em seu contexto histórico, portanto, o homem falível, pela mentira, conduz a algum tipo de ganho sólido, do qual se venha a se alegrar? Será este o caminho que leva à formação de uma consciência coletiva sobre a desigualdade e a injustiça socialmente perpetradas?

Na primeira das seis intervenções antirracistas à página 59 de O evangelho segundo o espiritismo, em seu item 8, Kardec escreve: “Tomada a Terra por termo de comparação, pode-se fazer ideia do estado de um mundo inferior, supondo seus habitantes na condição das raças selvagens ou das nações bárbaras que ainda entre nós se encontram, restos do estado primitivo do nosso orbe”. A proposta colocada de modo insolente pelo EàE como redação “melhorada” diz: “Tomada a Terra por termo de comparação, pode-se fazer ideia do estado de um mundo inferior, supondo seus habitantes na condição de outras espécies do gênero humano, como homo erectus e homo neanderthalensis que já habitaram entre nós, lembranças fósseis do estado primitivo do nosso orbe”

A verdadeira barbaridade aqui neste exemplo está na ingenuidade intelectual de quem propôs a nova redação, fazendo lembrar a feita por Paulo Alves Godoy, em 1974, na tradução do mesmo livro, ao substituir a expressão original “homens maus” pela ingênua “homens menos bons”. Há que se repetir aqui a velha expressão: a emenda é pior do que o soneto, válido tanto para Godoy quanto para o EàE, porque não só não reflete o pensamento expresso nas duas situações pelo autor, Allan Kardec, mas, principalmente, por reduzi-las ao que não disse nem pretendeu. A proposta, pois, de um lado violenta a obra como a empobrece de modo acintoso, tanto cultural quanto intelectualmente.

Nem seria preciso lembrar, ainda, que a proposta deseja fazer entender hoje aquilo que sequer era aventado à época de Kardec do ponto de vista da cultura e da ciência de então. O leitor atento há de perceber espontaneamente que a síntese comparativa feita por Kardec aponta para condições que diferenciam os mundos inferiores dos superiores, não havendo nenhuma agressividade racial por parte dele, sequer indicação a ela. Somente uma razão enviesada, maculada por traumas desconhecidos, há de entender qualquer racismo presente na síntese comparativa.

Voltaremos ao assunto, oportunamente.

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