A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições, defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?
A resposta que o autor apresenta é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que mora seu valor. Ela nos obriga a pensar.
Quem conhece Allan Kardec sabe: o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral — apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação, comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.
Mas aí essa ideia atravessou o Atlântico, desembarcou num Brasil católico por tradição e mergulhou numa cultura que respirava fé, devoção e misticismo. O resultado não poderia ser apenas uma tradução. Foi uma reinvenção.
A dissertação mostra como o espiritismo brasileiro foi sendo moldado por fatores bem concretos: o habitus católico da nossa sociedade, a perseguição pesada da Igreja, do Estado e da medicina, a influência de obras como Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, a atuação centralizadora da Federação Espírita Brasileira e, claro, o fenômeno Chico Xavier.
Esses elementos não apenas adaptaram a linguagem espírita. Eles empurraram a doutrina para um lugar que Kardec provavelmente não imaginava — ou talvez não desejasse.
Aqui está o ponto que mais me provoca no estudo. Adaptar a forma de falar é uma coisa. Substituir o método de conhecimento por outro completamente diferente é outra, bem mais séria. Quando a autoridade do médium passa a valer mais do que o controle das fontes, a natureza do projeto muda.
O espiritismo de Kardec perguntava: “Isso é verificável?” O espiritismo religioso brasileiro passou a perguntar: “Quem disse?” Não é só uma mudança de sotaque. É de estrutura.
As instituições definem a rota
A Federação Espírita Brasileira aparece nessa história como um personagem decisivo. Ao unificar o movimento — gesto nobre e necessário —, ela também definiu qual espiritismo prevaleceria.
O foco recaiu sobre a dimensão religiosa, a prática assistencial e a linguagem cristã. O resultado foi a consolidação de um modelo dominante. E, como toda institucionalização, ele trouxe consigo estabilidade — mas também ortodoxia.
O espiritismo passou de sistema de investigação a sistema de pertencimento. Quem pertence tende a se acomodar. E quem se acomoda tende a parar de perguntar.
Chico Xavier: bênção e ambiguidade
Admirar Chico Xavier não é difícil. Difícil é analisar seu impacto sem perder o equilíbrio entre a reverência e a lucidez.
A dissertação reconhece seu papel como mediador cultural, tradutor simbólico, ponte entre o espiritismo e o coração religioso do brasileiro. Foi ele quem popularizou a doutrina, quem a fez caber no imaginário de milhões.
Mas popularização tem seu preço. A massificação trouxe simplificação. E a simplificação, muitas vezes, trouxe redução crítica. A doutrina saiu do laboratório e foi morar no coração — um lugar lindo, mas pouco afeito a questionamentos metódicos.
Se tem uma coisa que o estudo deixa clara é que o espiritismo brasileiro nunca foi uma coisa só. Desde o começo conviveram por aqui — nem sempre em paz — correntes científicas, filosóficas e religiosas.
A hegemonia religiosa escondeu as outras, mas não as eliminou. Ainda existem espíritas que investigam, questionam, experimentam. São minoria? Talvez. Mas existem. E essa diversidade impede qualquer leitura simplista. O espiritismo brasileiro não é uma essência fixa. É um campo em disputa.
O que a academia vê — e o que ela não vê
Do ponto de vista acadêmico, a dissertação é impecável: fontes, método, diálogo com a literatura. Mas — e isso vale para muitos estudos sociológicos da religião — há um risco de olhar só para as engrenagens sociais e esquecer que, para quem vive a experiência, o que importa é a verdade sentida.
A crença, a vivência, a intuição do sagrado: essas coisas não são só “dados”. São o centro da experiência religiosa. E nem sempre cabem nas categorias de Bourdieu. O grande mérito da dissertação não está na resposta que dá. Está na pergunta que ela nos obriga a formular melhor: o espiritismo brasileiro é continuidade do projeto de Kardec ou sua reinterpretação histórica? E mais: dá para manter uma proposta de investigação num ambiente que favorece a crença?
Léon Denis escreveu que “o espiritismo será aquilo que os homens fizerem dele”. A dissertação abre com essa frase, e talvez ela contenha a chave de tudo. Se o espiritismo se tornou religião no Brasil, isso não foi obra do acaso nem destino inevitável. Foi fruto de escolhas — conscientes ou não — dos agentes que construíram essa história.
E se foi assim, nada está encerrado.
Entre ciência, filosofia e religião, o espiritismo continua em construção. E como toda construção humana, está aberto a revisões, desvios, recomeços. O espiritismo será o que fizermos dele. A pergunta é: o que queremos fazer?
Referência:
RIBEIRO JÚNIOR, Adair. Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições. 2026. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) – PUC-SP, São Paulo, 2026.