Uma releitura contemporânea da questão 853 de O Livro dos Espíritos
Há perguntas que atravessam séculos com a mesma inquietação: existe destino? Somos conduzidos por um fio invisível que determina o fim de nossa história, ou caminhamos em terreno aberto, onde cada decisão pode alterar o curso dos acontecimentos?
A questão 853 de O Livro dos Espíritos volta a frequentar esse debate com força. O texto descreve situações em que uma pessoa escapa de um perigo mortal apenas para cair em outro — e questiona: seria isso fatalidade? O termo, carregado de ressonâncias filosóficas e religiosas do século XIX, parece sugerir um destino inflexível.
Mas a resposta dos Espíritos aponta para outra direção: “Não há de fatal, no verdadeiro sentido da palavra, senão o instante da morte.” Nada além disso.
Uma ideia incômoda e necessária: há limites biográficos, mas não destinos cegos
A visão apresentada por Kardec desmonta o determinismo que, na época, dividia espaço entre a teologia do “desígnio divino” e o mecanicismo positivista. O Espiritismo propõe uma síntese diferente: existe um marco final da vida corporal, mas não um destino pré-traçado em seus detalhes.
Em outras palavras: podemos alterar o caminho, mas não podemos transformar a natureza da própria existência física — que é temporária. Essa distinção abre espaço para uma noção muito mais rica do que é “fatalidade”: planejamento.
Planejamento reencarnatório: uma arquitetura flexível
Quando os Espíritos afirmam que Deus — e muitas vezes o próprio Espírito — sabe de antemão “o gênero de morte”, não estão descrevendo um script imutável, e sim o projeto pedagógico de uma encarnação. Como um viajante que escolhe uma rota geral sabendo que encontrará trechos desconhecidos, curvas inesperadas e desvios imprevistos, o Espírito participa do desenho das grandes linhas de sua trajetória.
Provas, desafios, ambientes de experiência e até certas tendências psicológicas fazem parte desse roteiro. Mas o modo como atravessamos cada etapa depende de escolhas:
- hábitos de vida,
- decisões morais,
- respostas emocionais,
- relações afetivas,
- uso ou abuso do corpo,
- e até mesmo omissões.
Nada disso é secundário. O livre-arbítrio, que seria irrelevante num universo fatalista, torna-se peça central.
O instante da morte: o que Kardec realmente quis dizer
O “instante fatal” não deve ser lido como um relógio invisível que dispara na hora marcada, mas como a limitação natural do ciclo biológico. A biologia, e não um destino rígido, estabelece o momento em que o corpo deixa de servir ao Espírito. Esse limite pode ser alcançado por múltiplas vias: doença, acidente, desgaste, violência, ou mesmo o descanso silencioso do sono final.
Antes disso, no entanto, há margem para intervenção — física, emocional, espiritual. A proteção de benfeitores espirituais, a conduta moral do indivíduo, o ambiente em que vive e os laços afetivos podem evitar, adiar ou transformar circunstâncias de risco.
É por isso que Kardec conclui: “Não perecerás se a tua hora não chegou.” Não se trata de predição, e sim de coerência com as leis de vida e de morte.
Destino, acaso ou construção? A visão moderna aproxima-se surpreendentemente da doutrinária
Curiosamente, pesquisas recentes sobre experiências de quase morte (EQMs), lucidez terminal e consciência não local — como as de Pim van Lommel, Sam Parnia, Bruce Greyson e Alexander Batthyány — convergem para uma ideia compatível com a proposta espírita: há um núcleo organizador da experiência humana que transcende o cérebro e parece orientar a biografia sem anulá-la.
Relatos de pessoas que “não deveriam ter sobrevivido”, mas sobreviveram, aparecem com frequência nas EQMs. Muitos descrevem a mesma sensação que Kardec registrou: “Não era a minha hora.”
Isso não implica um destino fechado; implica que a vida possui uma estrutura, e não apenas uma sequência de acasos.
Entre o roteiro e a improvisação: o que permanece essencial
A leitura jornalístico-ensaística desse tema nos permite enxergar a existência humana como uma obra híbrida:
- roteirada no plano profundo;
- improvisada nos detalhes;
- plástica nas circunstâncias;
- responsável em suas escolhas;
- educativa em sua finalidade.
Não é a fatalidade que governa a vida, mas a capacidade de aprender. E, se há um momento inescapável — o término da experiência corporal — tudo o que antecede esse marco é campo aberto, permeado de liberdade, influência e consequências.
A vida, portanto, não é uma linha reta traçada pelo destino, mas uma sinfonia construída a várias mãos: a nossa, a dos Espíritos que nos assistem e a da própria inteligência universal que nos inspira a caminhar.