RESENHA

AIZPÚRUA, Jon. El Espiritismo y la creación poética. Barcelona: Editorial El Fanad, 2025. 366 p.

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A nova edição de El Espiritismo y la creación poética, de Jon Aizpúrua, representa contribuição relevante aos estudos espíritas aplicados à estética e à literatura. Revista e ampliada durante o autoexílio do autor na Espanha, a obra consolida reflexões iniciadas em décadas anteriores, agora reformuladas com maior rigor conceitual, ampliação documental e evidente maturidade crítica.

Aizpúrua, conhecido por sua atuação no Espiritismo laico e livre-pensador latino-americano, ex-presidente da atual Associação Espírita Internacional (Cepa), propõe um estudo que se afasta tanto do proselitismo religioso quanto da recusa acadêmica apriorística da espiritualidade no campo estético. O livro assume posição de fronteira: dialoga com a crítica literária, a filosofia da arte e a tradição espírita kardeciana, sem subordinar um campo ao outro.

Arte e poesia na visão espírita

No capítulo inaugural, o autor estabelece o fundamento teórico da obra ao defender a existência de uma poesia espírita enquanto fenômeno cultural legítimo, embora historicamente marginalizado pela crítica literária oficial. Tal marginalização dialoga com Immanuel Kant: herança da separação moderna entre juízo estético e conhecimento metafísico. Desde a Crítica da Faculdade do Juízo, a arte passou a ser concebida como domínio da finalidade sem fim, desvinculada de pretensão cognitiva sobre o real.

Aizpúrua opera, sem confrontar diretamente Kant, uma inflexão relevante: para o Espiritismo, a experiência estética não se reduz ao jogo formal da sensibilidade, mas envolve memória espiritual, intuição moral e experiência existencial ampliada pela reencarnação. A poesia não é apenas forma, mas revelação parcial de realidade ontologicamente mais ampla.

Essa concepção aproxima-se da estética da expressão de Benedetto Croce, para quem a arte é intuição expressiva inseparável da vida interior do sujeito. A diferença decisiva: em Aizpúrua, essa interioridade não se esgota no psiquismo individual, projetando-se na continuidade espiritual do ser.

Os poetas do Espiritismo: adesão doutrinária e exigência estética

Este capítulo constitui o núcleo metodológico da obra. Aizpúrua estabelece com rigor o que pode ser legitimamente compreendido como poesia espírita. Não basta que um poema trate de temas espirituais: o critério decisivo é a adesão consciente, explícita e pública aos princípios fundamentais da doutrina espírita sistematizada por Allan Kardec. Essa delimitação impede a diluição do conceito em espiritualismo genérico.

Outro aspecto central é a distinção entre poesia espírita e poesia espiritualista: a primeira implica vínculo doutrinário consciente; a segunda, afinidade temática ou intuitiva com questões espirituais, sem compromisso explícito com o Espiritismo. Distinção que sustenta todo o edifício crítico do livro.

No plano histórico, Aizpúrua reconstrói o surgimento da poesia espírita no contexto europeu do século XIX, destacando os círculos espíritas franceses e a Revue Spirite. O autor recorda que Kardec acompanhou com atenção — e prudência — a produção poética associada ao movimento, reconhecendo a possibilidade de valor literário em determinados textos, desde que submetidos ao crivo da razão, da clareza simbólica e da elevação moral.

É nesse contexto que se insere a coletânea Ecos poéticos de ultratumba (1867), à qual Aizpúrua dedica especial atenção por ilustrar tanto as potencialidades quanto os limites da poesia espírita inicial. Os poemas são tratados como tentativas legítimas de expressão poética vinculadas a uma nova visão de mundo.

Ponto contundente do capítulo é a crítica à “acrobacia verbal”: textos bem-intencionados do ponto de vista moral, mas carentes de qualidades poéticas — imagens pobres, ritmo irregular, musicalidade precária, ausência de densidade simbólica. Aizpúrua é categórico: o Espiritismo não suspende as exigências da arte, nem autoriza a substituição da criação poética por discursos edificantes travestidos de verso.

Para sustentar sua análise, o autor menciona poetas vinculados ao Espiritismo, oriundos de diferentes contextos — franceses do século XIX, hispano-americanos e brasileiros. A abordagem, porém, não é indulgente: Aizpúrua distingue produções de valor predominantemente comunicativo e consolador daquelas que alcançam maior densidade simbólica e elaboração formal. A existência de poetas espíritas não implica, automaticamente, a existência de poesia esteticamente consistente — esta é sempre resultado de trabalho formal, imaginação e domínio da linguagem, não da adesão doutrinária em si.

O autor fornece ainda breves informações biográficas, situando cada poeta em seu contexto histórico, cultural e existencial. Esses apontamentos permitem compreender a relação entre trajetória de vida, adesão doutrinária e expressão poética, evidenciando que a poesia espírita se enraíza em biografias concretas.

Poetas espiritualistas: convergências temáticas e afinidades intuitivas

No capítulo seguinte, Aizpúrua amplia o horizonte de análise para autores que, embora não vinculados ao Espiritismo, expressaram intuições profundas convergentes com uma visão espiritual da existência.

Victor Hugo ocupa lugar destacado. Sua obra tardia manifesta concepção espiritual da vida e da morte. Em versos citados por Aizpúrua: “Digo que la tumba que se cierra sobre los / muertos, abre el firmamento, y que aquello que se / toma por el fin es el comienzo.” E ainda: “La cuna tiene un ayer y la tumba un mañana.” A oposição clássica entre começo e fim é dissolvida poeticamente: a tumba “abre o firmamento”, o berço carrega um passado, a sepultura anuncia um futuro. Tal inversão simbólica aproxima Hugo de uma antropologia espiritualista que converge, por afinidade intuitiva, com princípios espíritas.

Amado Nervo é igualmente significativo. Sua obra de maturidade exprime espiritualidade intimista e reflexiva. Em versos citados: “Si mis rimas fuesen bellas, / enorgullecerme de ellas / no está bien, / pues nunca mías han sido / en realidad: al oído / me las dicta… ¡no sé quién!” Aizpúrua interpreta esses versos como confissão poética da experiência de inspiração — não fabricação voluntária, mas escuta interior. Nervo dissolve a centralidade absoluta do sujeito criador, introduzindo concepção relacional da criação poética que dialoga, por afinidade, com a ideia espírita de inspiração e continuidade da vida espiritual.

A poesia de origem mediúnica: autoria, linguagem e valor estético

Neste capítulo, Aizpúrua enfrenta questão delicada: a possibilidade de criação poética por via mediúnica e os critérios para sua avaliação estética. Em consonância com a metodologia kardeciana, afasta tanto a aceitação automática da autoria espiritual quanto o ceticismo materialista que descarta o fenômeno a priori. A mediunidade é meio, jamais garantia de valor literário.

A obra psicográfica de Chico Xavier ocupa lugar central. Aizpúrua reconhece a importância histórica de livros como Parnaso de Além-Túmulo não como prova da autoria espiritual, mas como caso singular pela tentativa de preservação de traços estilísticos de poetas consagrados. Interessa menos a confirmação da identidade autoral e mais a possibilidade — rara — de que a produção mediúnica atinja consistência formal compatível com a exigência estética.

Ao examinar poemas atribuídos a Augusto dos Anjos, Aizpúrua detém-se na permanência de um léxico científico-metafísico que atravessa tanto a obra encarnada quanto certos textos mediúnicos. Em versos comentados: “Nosotros fuimos los gérmenes de otras eras, / enjaulados en la cárcel de las luchas; / venimos del principio de las mónadas, / buscando las perfecciones absolutas.” A imagem dos “gérmenes de otras eras” sugere continuidade ontológica anterior à vida presente; a “cárcel” remete à condição do espírito encarnado; a busca por “perfecciones absolutas” introduz horizonte teleológico de progresso. Aizpúrua chama atenção para a tensão entre ciência e transcendência: o vocabulário científico é metáfora poética de processo espiritual.

Em relação a poemas atribuídos a Castro Alves, observa-se deslocamento da retórica social para linguagem mais espiritual e universalista. Em versos citados: “En la tierra un sueño eterno de belleza / palpita en todo el espíritu que, ansioso, / espera la luz espléndida del gozo / de las síntesis de amor de la Naturaleza.” A “tierra” deixa de ser apenas palco da injustiça para tornar-se espaço de “sueño eterno de belleza”. Aizpúrua observa a permanência da dicção oratória típica do poeta, agora aplicada a conteúdos espirituais, mas também a tendência à generalização simbólica com menor densidade imagética concreta.

Apesar das reservas, Aizpúrua reconhece que a produção de Chico Xavier supera, em muitos momentos, o padrão médio da poesia mediúnica — sobretudo quando evita o tom exortativo direto e investe em imagens, ritmo e sugestão simbólica. O valor estético, porém, não decorre da mediunidade, mas do resultado literário alcançado.

Sob leitura inspirada em Walter Benjamin, Aizpúrua observa que a poesia mediúnica tensiona a noção moderna de autoria individual, recolocando o texto no campo da transmissão e da memória cultural. Essa condição, longe de suspender o juízo crítico, exige maior rigor analítico justamente porque o estatuto autoral é mais complexo.

Temas espíritas na lírica universal: recorrências, símbolos e horizonte antropológico

No capítulo final, Aizpúrua demonstra que temas centrais do Espiritismo — imortalidade da alma, continuidade da vida, justiça moral, progresso do espírito — atravessam a lírica universal muito antes e além da formulação kardeciana. O objetivo não é reivindicar autores para o campo espírita, mas evidenciar a recorrência histórica dessas intuições.

Adota-se perspectiva hermenêutica que se aproxima da leitura “constelar” proposta por Walter Benjamin: ideias reaparecem em diferentes épocas não por influência direta, mas por afinidade estrutural com experiências humanas universais. A poesia funciona como espaço privilegiado de antecipação simbólica de conceitos que filosofia e ciência apenas mais tarde sistematizam.

Entre os temas recorrentes, destaca-se a intuição da sobrevivência da consciência para além da morte física. Em diferentes tradições poéticas — do romantismo ao simbolismo —, a morte surge menos como aniquilamento e mais como passagem, transição. Outro eixo é o da justiça moral imanente ao universo: a poesia frequentemente expressa a percepção de que os atos humanos possuem consequências que ultrapassam os limites imediatos da existência material. O tema do progresso espiritual constitui terceiro núcleo: a lírica universal sugere que o ser humano está em processo contínuo, apontando para incompletude essencial que exige continuidade e superação.

Do ponto de vista estético, tais temas não aparecem como doutrina, mas como imagem, metáfora, experiência sensível. É essa mediação simbólica que preserva a autonomia da arte. A poesia não explica; sugere, evoca, faz sentir.

O capítulo final funciona como síntese do argumento central: o Espiritismo não cria artificialmente uma estética, mas dialoga com tradição poética universal que sempre interrogou o sentido da existência, da morte e da transcendência.

Avaliação final

El Espiritismo y la creación poética é obra de maturidade intelectual que articula estética, filosofia e Espiritismo sem concessões simplificadoras. Ao propor reaproximação entre criação poética, espiritualidade e modernidade, Jon Aizpúrua oferece contribuição rara, rigorosa e necessária ao pensamento espírita contemporâneo, demonstrando que a abertura espiritual não implica renúncia ao juízo estético, mas exige ainda mais responsabilidade intelectual.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

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