O livro Movimento Espírita Internacional, lançado em novembro último pelo Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro (CCDPE-ECM), reúne os depoimentos de Antonio Cesar Perri de Carvalho, Charles Kempf e Elsa Rossi. Trata-se de uma obra de história e de histórias: um livro-depoimento em que os autores não apenas registram sua participação na criação e no desenvolvimento do Conselho Espírita Internacional (CEI), mas também examinam suas “origens, ideais e experiências”, conforme anuncia o subtítulo.

Não é um volume que caiba no espaço estreito de uma simples resenha. Reduzi-lo a algumas linhas seria correr o risco de oferecer ao leitor uma visão empobrecida de um capítulo recente da história do Espiritismo no Brasil e no exterior.

Por isso, antes de comentar diretamente o conteúdo do livro, propomos um breve percurso histórico que permita situar melhor o leitor — sobretudo aqueles que, de algum modo, participam das atividades do movimento espírita brasileiro.

Da centralização federativa ao esvaziamento do movimento internacional

Por mais de um século, a organização do Espiritismo no Brasil construiu-se sobre um fio permanente de tensão: o desejo de unificação, de um lado, e o impulso centralizador, de outro. O resultado foi um movimento fértil em iniciativas, mas marcado por fraturas doutrinárias e disputas de poder que se estendem até o presente.

Das raízes pluralistas à centralização federativa

Na segunda metade do século XIX, o Espiritismo brasileiro era essencialmente plural. Existiam grupos kardecistas estritos, associações de estudo filosófico, núcleos voltados à investigação dos fenômenos mediúnicos e círculos dedicados à prática assistencial. A chamada “unificação” era então apenas uma ideia em disputa — não um consenso.

Fundada em 1884, a Federação Espírita Brasileira (FEB) nasce nesse ambiente diverso. Seus primeiros anos foram marcados por debates sobre autoridade doutrinária, pelas relações com o catolicismo e o protestantismo emergentes e pela difícil tarefa de construir alguma unidade em meio às diferentes leituras da obra de Kardec.

O ponto de inflexão ocorre quando Adolfo Bezerra de Menezes assume, pela segunda vez, a presidência da instituição — após ter renunciado a um primeiro mandato cerca de um ano depois de iniciado. Duas decisões de sua gestão moldariam profundamente os rumos do Espiritismo organizado no país.

A primeira foi equiparar, na orientação doutrinária da FEB, Allan Kardec e João Batista Roustaing, autor de Os Quatro Evangelhos, obra de caráter revelacionista e forte cunho religioso. Não se tratava apenas de uma escolha editorial, mas de um gesto político e cultural: institucionalizavam-se as ideias roustainguistas e, com elas, introduzia-se no cerne do movimento espírita brasileiro uma perspectiva místico-cristã que tensionava o projeto filosófico-científico concebido por Kardec.

A segunda decisão foi assumir que a FEB não seria apenas mais uma entidade, mas a condutora do Espiritismo no Brasil. A partir daí, consolidou-se uma estrutura hierárquica sustentada por autoridade moral e organizacional, voltada a falar “em nome do movimento”.

Construiu-se, assim, um Espiritismo institucional de perfil religioso-cristão, distinto da matriz original kardeciana, e uma FEB que:

  • não inventa a estrutura federativa, mas a consolida;
  • transforma a opção Roustaing–Kardec em eixo de disputas que atravessariam todo o século XX;
  • assume um papel de coordenação nacional que produz unidade administrativa, mas restringe o pluralismo doutrinário.
1949: o Pacto Áureo e a legitimação formal do poder

Meio século depois, em 1949, um episódio pouco analisado fora dos meios especializados redefiniria o mapa institucional do Espiritismo brasileiro: o Pacto Áureo, firmado no Rio de Janeiro durante o 2º Congresso Espírita Pan-Americano, realizado sob a bandeira da então CEPA-Confederação Espírita Panamericana, hoje CEPA-Associação Espírita Internacional.

No contexto do pós-guerra, a retórica da união e da organização ganhava força em todo o mundo. A FEB soube assimilar aquele momento histórico e convocou lideranças das federações estaduais a assinar um documento que, sob a aparência de um pacto fraterno, formalizava sua posição como centro coordenador do movimento espírita nacional.

O Pacto Áureo:

  • transformou a FEB de polo influente em polo oficialmente reconhecido;
  • instituiu uma hierarquia tácita, alinhando federações estaduais ao eixo do então Distrito Federal;
  • consolidou a visão do Espiritismo como religião cristã, reforçando um viés já delineado desde Bezerra de Menezes.

A centralização e a autoridade doutrinária, cultivadas desde o século XIX, recebiam enfim sua legitimação formal. Desde então, a arquitetura federativa privilegiaria convergência e uniformidade em detrimento da diversidade inicial.

Anos 1970: Thiesen e a engenharia política da FEB

Na década de 1970, em pleno regime militar, a FEB entra em nova fase sob a presidência de Francisco Thiesen. Seu projeto manteve rigorosamente a linha doutrinária consolidada: preservar a condução do Espiritismo brasileiro sob o eixo Roustaing/Kardec.

Paralelamente, porém, Thiesen inaugura um movimento peculiar: um distensionamento político em relação ao restante do movimento espírita. Buscando ampliar a base federativa de apoio, passa a incorporar lideranças de outros estados à estrutura dirigente da FEB.

Entre elas destacam-se Nestor João Masotti e Antonio Cesar Perri de Carvalho, então ex-presidentes da USE-SP, entidade historicamente crítica das posições roustainguistas da FEB. A aproximação tinha forte valor simbólico.

O resultado é claro: amplia-se o apoio institucional, mas sem qualquer alteração do núcleo ideológico. A década passa a ser caracterizada por três marcas centrais:

  1. reafirmação doutrinária do eixo Roustaing/Kardec;
  2. centralização em ambiente político autoritário;
  3. cooptação estratégica de lideranças regionais.

A FEB saía mais robusta organizacionalmente, porém cada vez mais homogênea em termos doutrinários.

A era Masotti: ambição global e bloqueio interno

A ascensão de Nestor João Masotti à presidência da FEB coroa sua trajetória na USE e posteriormente na própria Federação. Sua gestão representa o encontro entre ambição internacional e impasse doméstico.

Três movimentos a definem:

O primeiro é o estímulo à democratização interna do Conselho Federativo Nacional (CFN), órgão de articulação entre as federações estaduais.

O segundo é a consolidação do Conselho Espírita Internacional (CEI) — antigo sonho da FEB de projetar-se como referência mundial do Espiritismo. Com investimento financeiro e articulação política, o CEI ganha representatividade, estabelece encontros internacionais e se torna, ainda que brevemente, a maior experiência de organização espírita global da história.

O terceiro movimento é o mais sensível: a tentativa de reduzir a presença explícita de Roustaing nos estatutos da FEB. Não se trata de reforma doutrinária, mas de estratégia política: modernizar a imagem institucional e reduzir resistências kardecistas.

A reação interna, porém, é intensa, e a proposta recua. O CEI avança; a reforma estatutária estanca. Fica exposto o limite estrutural de uma direção incapaz de atualizar sua identidade sem gerar rupturas.

Perri: continuidade interrompida e “golpe democrático”

Com a desencarnação de Masotti, Antonio Cesar Perri de Carvalho assume interinamente e depois é eleito presidente da FEB. Tudo apontava continuidade: fortalecimento do CEI, valorização do CFN e modernização administrativa.

A estabilidade, contudo, era apenas aparente. Nos bastidores, forma-se um movimento silencioso de oposição ligado aos setores mais conservadores. Na renovação da diretoria, outro nome é eleito.

Formalmente regular, o episódio foi interpretado por muitos como um “golpe democrático”: um rearranjo de forças que interrompeu abruptamente o projeto de abertura institucional.

As consequências foram imediatas:

  • esvaziamento de iniciativas federativas;
  • retração do apoio ao CEI;
  • refluxo do protagonismo internacional brasileiro.
Ambiguidade estrutural e fraturas aprofundadas

Dos períodos Thiesen–Masotti–Perri emerge o grande paradoxo federativo: ampliação política e fechamento doutrinário. Quanto maior a rede de alianças institucionais, mais restrito se tornava o campo de interpretações aceitas.

Consolida-se, sobretudo na gestão Masotti, a tríade “filosofia, ciência e religião”, inviabilizando qualquer convergência com outras correntes legítimas do movimento espírita, como, por exemplo, a representada pela CEPA, defensora do Espiritismo constituído por filosofia, ciência e moral, sem caráter religioso formal.

Essas duas matrizes tornam-se, explicitamente e definitivamente, inconciliáveis.

O livro Movimento Espírita Internacional: testemunho e emoção

É nesse contexto que se situa Movimento Espírita Internacional – Origens, ideais e experiências. Mais que análise histórica, a obra é testemunho vivo da trajetória do CEI.

Os autores registram:

  • sonhos de integração mundial;
  • expectativas de amadurecimento do movimento;
  • projetos sustentados pelo ideal de fraternidade internacional;

e também:

  • as decepções provocadas pelas mudanças institucionais;
  • e as mágoas daqueles que dedicaram esforços a um projeto que se viu esvaziado.

Sonhos, esperanças, decepções e mágoas não são apenas palavras-chave do livro: descrevem um ciclo inteiro da história recente do Espiritismo organizado.

Um mapa para compreender o presente

Da consolidação promovida por Bezerra de Menezes ao Pacto Áureo, da engenharia política de Thiesen à ambição internacional de Masotti, da continuidade interrompida de Perri à denúncia do livro Movimento Espírita Internacional, desenha-se um mapa revelador:

  • a FEB ampliou sua influência política, mas estreitou seu horizonte doutrinário;
  • afrouxou Roustaing no plano formal, mas preservou a matriz religiosa dele derivada;
  • fortaleceu a estrutura nacional, mas inviabilizou pontes com correntes de livre-pensamento.

É nesse cruzamento entre expansão institucional e retração ideológica que se situa o nó histórico da organização espírita no Brasil — um nó que Kempf, Rossi e Perri ajudam a iluminar, ainda que sua superação permaneça, por ora, aberta.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

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