Autoria, responsabilidade e honestidade epistemológica. Um caso exemplar de ambiguidade autoral recente.
Ética intelectual como valor constitutivo do Espiritismo
O Espiritismo, tal como estruturado por Allan Kardec, reivindica desde sua origem um estatuto racional, crítico e progressivo. Kardec foi explícito ao afirmar que a doutrina deveria caminhar “de par com o progresso” e submeter-se permanentemente ao exame da razão (KARDEC, 1860, p. 18). Tal princípio não se limita ao conteúdo das ideias, mas alcança, necessariamente, os procedimentos intelectuais que lhes dão forma.
Nesse horizonte, a ética intelectual — compreendida como clareza quanto à autoria, responsabilidade pelas teses defendidas e transparência no processo de produção do conhecimento — constitui elemento indissociável do método espírita. Não há coerência em defender racionalidade doutrinária sem adotar práticas igualmente racionais e transparentes no plano autoral.
Autoria, coautoria e colaboração: distinções necessárias
No campo acadêmico e editorial, a distinção entre autor, coautor e colaborador é amplamente reconhecida como critério de honestidade intelectual. Segundo padrões consolidados de produção científica, a autoria pressupõe participação substantiva na concepção, redação e responsabilidade final pelo texto, enquanto a colaboração pode envolver apoio técnico, revisão, pesquisa ou assessoria conceitual (ECO, 2016, p. 143).
A omissão dessa distinção compromete a inteligibilidade da obra e fragiliza o pacto de confiança com o leitor. Como observa Bourdieu, a autoridade simbólica do discurso intelectual depende da clareza sobre quem fala e a partir de que posição (BOURDIEU, 1998, p. 18).
Um caso exemplar de ambiguidade autoral
O livro O Espiritismo é obra de Jesus, atribuído na capa a Paulo Henrique de Figueiredo e a outros (sete) autores, oferece um exemplo concreto das dificuldades aqui discutidas.
Embora traga notas biográficas dos participantes e uma apresentação coletiva, o corpo da obra revela:
- texto contínuo e estilisticamente homogêneo;
- ausência de capítulos assinados;
- inexistência de indicação objetiva das contribuições individuais.
Do ponto de vista metodológico, tais características indicam fortemente uma autoria individual, ainda que assessorada por uma equipe de colaboradores. A ausência de explicitação funcional gera uma ambiguidade que não é meramente formal, mas epistemológica: o leitor não dispõe de elementos para identificar quem responde por quais interpretações históricas, teológicas ou doutrinárias. Por que isso é importante? Se outras não houvessem, pela razão mesma de que se trata de uma obra diretamente implicada à polêmica da suposta adulteração de “A Gênese”, de Allan Kardec. (Leia aqui.)
O caso específico da obra
No livro em questão, observa-se a seguinte estrutura:
- Capa: atribuição da autoria a Paulo Henrique de Figueiredo e outros autores (totalizando oito nomes);
- Página 13: breves notas biográficas dos participantes;
- Página 15 (Apresentação): narrativa geral sobre a gênese da obra, sem discriminação funcional das contribuições;
- Corpo do livro: texto homogêneo, contínuo, estilisticamente unitário, que não apresenta variações de voz autoral nem divisão de responsabilidades.
A leitura atenta conduz à conclusão inevitável de que: o texto foi escrito por um único autor, sendo os demais participantes, ao que tudo indica, assessores, colaboradores intelectuais ou auxiliares de pesquisa, e não coautores no sentido estrito.
Diluição autoral e seus efeitos no debate espírita
A diluição da autoria produz efeitos relevantes no interior do movimento espírita contemporâneo:
a) Diluição da responsabilidade intelectual
Teses controversas passam a circular como expressão de um coletivo abstrato, dificultando o exame crítico direto.
b) Produção artificial de consenso
A multiplicidade nominal pode sugerir concordância ampla onde há, na prática, uma posição individual predominante (HABERMAS, 2014, p. 92).
c) Empobrecimento do debate
O diálogo crítico exige interlocutores identificáveis. Sem isso, o debate se desloca do campo racional para o simbólico ou institucional.
Kardec como referência metodológica
O contraste com a prática de Kardec é elucidativo. Embora trabalhasse com extensa rede de médiuns e correspondentes, ele:
- assumia explicitamente a redação final das obras;
- distinguia comunicações espirituais de análises pessoais;
- responsabilizava-se publicamente pelas conclusões apresentadas (KARDEC, 1859, p. 7-9).
O chamado controle universal do ensino dos Espíritos não eliminava a autoria humana; ao contrário, exigia maior rigor na mediação intelectual. Como observa Herculano Pires, Kardec jamais se ocultou atrás de autoridades espirituais ou coletivas: “assumia o risco do pensamento” (PIRES, 1979, p. 41).
Alternativas editoriais eticamente coerentes
À luz da ética intelectual, soluções mais adequadas teriam sido:
- apresentar a obra como autoria individual, com menção explícita a colaboradores;
- ou discriminar objetivamente as funções desempenhadas por cada participante.
Tais procedimentos não diminuem o valor da obra; ao contrário, reforçam sua credibilidade e alinham-na ao rigor metodológico que o Espiritismo historicamente reivindica para si (DENIS, 1922, p. 27).
Considerações finais
A questão da autoria não é secundária nem burocrática. Ela envolve o próprio modo como o Espiritismo se posiciona diante da verdade, do erro e do debate crítico. Como advertia Kardec, “o entusiasmo é fonte de ilusão” (KARDEC, 1860, p. 22); e a ilusão, no campo intelectual, começa muitas vezes pela opacidade das responsabilidades.
Em última instância, trata-se de reafirmar um princípio simples e exigente: autoria não é prestígio simbólico, mas responsabilidade epistemológica perante a consciência coletiva.
Referências
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
DENIS, Léon. Depois da morte. 8. ed. Paris: Librairie Jean Meyer, 1922.
ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 26. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. Vol. 1. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Paris: Didier, 1859.
KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: Didier, 1868.
PIRES, José Herculano. O espírito e o tempo. São Paulo: Paidéia, 1979.