Medo, identidade e paralisia diante da ameaça

Léon Denis escreveu em um contexto histórico marcado pela humilhação nacional francesa após a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). Sua inquietação, porém, ultrapassava o campo militar ou diplomático. O que Denis denunciava era a erosão do ânimo coletivo, a perda do sentimento de pertença e de responsabilidade histórica. Para ele, quando uma sociedade deixa de acreditar em si mesma, a derrota já se consumou no plano moral, antes mesmo de qualquer agressão externa.

Mais de um século depois, esse diagnóstico encontra ressonância inquietante na Europa contemporânea.

França ontem: crise nacional como crise moral

Ao analisar a França derrotada, Denis não propunha um nacionalismo beligerante. Sua crítica era ética e espiritual: uma pátria não se sustenta apenas por exércitos ou instituições, mas por uma consciência coletiva ativa, capaz de reconhecer valores comuns e projetar futuro. Quando essa consciência se enfraquece, instala-se o medo — e o medo, longe de mobilizar, paralisa.

Essa leitura antecipa, sob linguagem espiritualista, análises que o século XX desenvolveria em chave filosófico-política.

Europa hoje: prosperidade sem horizonte comum

A Europa atual não enfrenta uma derrota militar direta, mas vive sob um regime difuso de ameaça: pressões geopolíticas, dependência energética, instabilidade tecnológica, crise demográfica e fragmentação identitária. Apesar da robustez institucional, observa-se uma dificuldade crescente de formular um projeto civilizatório compartilhado que vá além da gestão econômica.

Essa dissociação entre eficiência administrativa e fragilidade simbólica ajuda a compreender o sentimento de hesitação que atravessa o continente.

Hannah Arendt: o medo e a dissolução da ação política

À luz de Hannah Arendt, essa paralisia pode ser compreendida como uma crise da ação política. Arendt sustenta que o medo corrói o espaço público, pois transforma cidadãos em espectadores e reduz a política à administração técnica da sobrevivência (ARENDT, 2016). Onde o medo se instala como norma, desaparece a capacidade de iniciar algo novo — condição fundamental da liberdade.

A Europa, diante de ameaças externas e internas, parece frequentemente reagir não com ação, mas com adiamento.

Zygmunt Bauman: insegurança e modernidade líquida

Zygmunt Bauman amplia esse diagnóstico ao descrever a modernidade líquida como um estado permanente de insegurança, no qual identidades, vínculos e projetos de longo prazo se tornam frágeis (BAUMAN, 2001). Nesse contexto, a política deixa de perseguir ideais coletivos e passa a operar sob a lógica do controle do risco.

A hesitação europeia revela esse traço: evitar o pior substitui a construção do melhor.

Habermas: integração técnica e déficit democrático

Para Jürgen Habermas, o problema central da Europa é o déficit de vontade política decorrente da ausência de uma esfera pública continental robusta (HABERMAS, 2012). A integração avançou juridicamente e economicamente, mas não foi acompanhada por um processo equivalente de legitimação democrática e identificação simbólica.

Sem esse lastro comunicativo, a Europa reage de forma fragmentada a pressões externas — como ficou evidente diante da política de intimidação e imprevisibilidade adotada durante o governo de Donald Trump.

Denis revisitado: crise geopolítica como crise de consciência

O pensamento de Denis reaparece, assim, sob nova luz. O que ele chamava de decadência moral pode hoje ser descrito como perda da ação (Arendt), liquefação dos vínculos (Bauman) e déficit de legitimidade comunicativa (Habermas). Mudam os conceitos, mas o núcleo permanece: quando a consciência coletiva enfraquece, o medo ocupa o centro da vida política.

A ameaça externa não precisa ser avassaladora. Basta ser persistente diante de uma sociedade hesitante.

Fechamento — O preço do silêncio

Entre o grito de Léon Denis e o silêncio europeu atual há mais do que um século de distância: há a passagem de sociedades que ainda acreditavam em destinos comuns para sociedades que administram a própria insegurança. O silêncio, porém, não é neutro. Ele corrói a ação, normaliza a paralisia e transforma prudência em resignação.

A Europa ainda dispõe de memória histórica, recursos institucionais e capital intelectual. O que lhe falta — como já faltara à França observada por Denis — é a decisão de transformar medo em consciência e hesitação em projeto. Porque, como a história insiste em ensinar,

quando o medo governa, a liberdade já começou a recuar.

Referências

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

DENIS, Léon. Depois da morte. Tradução de Leopoldo Cirne. Rio de Janeiro: FEB, s.d.

HABERMAS, Jürgen. A crise da União Europeia. São Paulo: Unesp, 2012.

HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

 

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

Olá, seu comentário será muito bem-vindo.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.