Paulo Henrique de Figueiredo acaba de lançar o livro O Espiritismo é obra de Jesus e reafirma, perante seus leitores, a tese apresentada anteriormente em Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Para ele, as provas ali reunidas seriam suficientes para demonstrar que A Gênese, de Allan Kardec, foi objeto de adulterações editoriais após a morte do Codificador.

Ocorre, porém, que novas pesquisas históricas e filológicas trouxeram evidências de sentido oposto: as alterações textuais presentes na edição de 1869 teriam sido realizadas pelo próprio Allan Kardec, em processo regular de revisão autoral. Essas novas provas ampliam significativamente o panorama do debate e deslocam o eixo interpretativo que sustentava a hipótese da adulteração.

Embora tais evidências estejam disponíveis ao público interessado, Figueiredo não se refere a elas em seu novo livro. Não as menciona, não as analisa nem as discute — passa ao largo de um conjunto de dados que hoje ocupa lugar central na controvérsia.

Diante desse quadro, parte expressiva do público espírita manifesta perplexidade. Leitores atentos perguntam: quais provas devem prevalecer — as iniciais ou as posteriores? E, sobretudo: por que dados contrários à tese defendida não entram no debate apresentado pela obra mais recente?

A questão extrapola o campo da mera divergência historiográfica e alcança um problema maior: até que ponto evidências, isoladamente, são fonte legítima de crenças quando submetidas ao filtro das interpretações, das omissões e das adesões prévias? É nesse terreno — entre fatos, leituras e convicções — que se inscreve a presente reflexão.

Evidência não é aceitação

Essa questão toca um dos pontos mais delicados da natureza humana — tanto do ponto de vista psicológico quanto filosófico e espiritual: as evidências, por si mesmas, não são suficientes para gerar crenças. Elas podem estimular a crença, questioná-la ou abalá-la, mas não a determinam automaticamente. Entre evidência e crença existe um território vasto ocupado pela interpretação, pela identidade emocional, pela história pessoal e pelas necessidades existenciais de cada indivíduo.

Na prática humana concreta, a equação não funciona assim: Prova → Aceitação → Mudança de crença. Funciona mais como: Prova → Interpretação → Defesa de identidade → Aceitação ou rejeição. Cada pessoa filtra evidências conforme aquilo que já acredita, valoriza ou precisa manter intacto para preservar sua visão de mundo. Assim, quando uma prova ameaça convicções profundas — religiosas, políticas, morais ou existenciais — ela frequentemente é:

  • minimizada (“isso não é conclusivo”);
  • relativizada (“há outros estudos que dizem o contrário”);
  • reinterpretada (“a evidência foi distorcida”);
  • rejeitada emocionalmente (“eu não me sinto convencido”).

Esse fenômeno é conhecido na psicologia contemporânea como viés de confirmação: a tendência humana de buscar, valorizar e preservar informações que confirmem crenças prévias, enquanto se descartam ou enfraquecem dados dissonantes.

A crença como necessidade existencial

Há algo ainda mais profundo: muitas crenças não nascem da evidência, mas do desejo — desejo de sentido, de pertencimento, de estabilidade emocional ou espiritual. Algumas convicções funcionam como estruturas de sustentação psicológica. Nessas condições, aceitar uma nova evidência significaria não apenas mudar de ideia, mas reorganizar a própria identidade. Por isso:

  • Mudar de crença pode ser vivido como perda, não como ganho.
  • O sujeito não protege só uma ideia — protege a si mesmo.

Isso explica por que, diante de provas mais sólidas, algumas pessoas paradoxalmente se apegam ainda mais às crenças anteriores: o confronto com a incerteza gera angústia, e a reação defensiva fortalece o apego ao já conhecido.

O limite da razão pura

A história da ciência mostra que grandes mudanças de paradigma raramente ocorrem apenas pela acumulação de dados. Elas exigem tempo, rupturas geracionais e, sobretudo, a disposição subjetiva para aceitar o novo.

Thomas Kuhn observou que evidências raramente convertem opositores diretamente; muitas vezes apenas aguardam que novas gerações, menos comprometidas com hipóteses antigas, avancem. Isso reforça a ideia de que as crenças não são produtos diretos de provas, mas de convivências lentas entre dados, emoções, valores e interesses.

A perspectiva espiritual-espírita

O Espiritismo acrescenta um componente ainda mais amplo: a crença não depende apenas do intelecto atual, mas também do estágio evolutivo da consciência. Segundo essa visão:

  • O homem não crê apenas com a razão;
  • crê com o conjunto do seu ser — passado espiritual, tendências morais, maturidade emocional e grau de desapego às próprias certezas.

Allan Kardec ensina que a fé verdadeiramente sólida é a “fé raciocinada”, aquela que não teme o exame da razão em nenhuma época da humanidade. Mas para que a razão seja aceita, é preciso que o espírito esteja maduro para receber a verdade, mesmo quando ela desconstrói antigas seguranças.

Assim, a rejeição da evidência pode ser entendida não como mera ignorância intelectual, mas como limitação espiritual momentânea, própria do universo progressivo das consciências em amadurecimento.

O caso “A Gênese” como laboratório epistemológico
Infográfico, embora incompleto, permite uma visão geral do caso A Gênese. Disponível em https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo

De modo simplificado, a sequência dos acontecimentos pode ser organizada em três momentos distintos:

Primeira fase — a tese da adulteração

Com o lançamento do livro O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, consolidou-se, no meio espírita, a hipótese segundo a qual:

  • a edição de A Gênese datada de 1869 teria sido modificada por terceiros;
  • Allan Kardec não teria participado dessas alterações;
  • as supostas modificações teriam servido a um propósito ideológico, aproximando a obra de um viés cristianizante tradicional.

Naquele momento, os indícios disponíveis — diferenças textuais entre edições, lacunas documentais e inexistência pública de provas diretas de revisão autógrafa — sustentavam de modo plausível, embora provisório, a hipótese da adulteração.

A tese encontrou receptividade porque oferecia:

  • uma explicação simples para trechos percebidos como dissonantes em relação ao perfil filosófico-científico atribuído a Kardec;
  • a ideia de intervenção editorial posterior, atribuída genericamente a círculos religiosos ou sucessores institucionais;
  • a preservação da imagem do Codificador como autor linear, inteiramente coerente e imune a revisões conceituais.

Essa leitura ajustava-se particularmente às expectativas de setores espíritas críticos à dimensão religiosa assumida por parte do movimento ao longo do século XX.

Segunda fase — o surgimento de novas evidências documentais

O aprofundamento das pesquisas históricas e filológicas trouxe novos dados de peso substancial:

  • documentação comprova que desde fevereiro de 1868 Kardec planejava uma atualização formal da obra;
  • uma carta datada de setembro do mesmo ano registra explicitamente que A Gênese se encontrava sendo reimpressa “com correções e acréscimos importantes”, conforme palavras do próprio autor;
  • o processo editorial culminou com o fechamento das matrizes tipográficas ainda em 1868, procedimento que praticamente inviabiliza alterações posteriores sem nova preparação gráfica completa;
  • foi localizada uma cópia da 5ª edição datada de 1869, confirmando sua circulação no último ano de vida de Allan Kardec.

Além disso:

  • análises estilísticas mostram continuidade com o Kardec tardio de A Revista Espírita e de O Céu e o Inferno;
  • as modificações revelam coerência conceitual com a evolução de seu pensamento filosófico-espiritual.

Diante desse conjunto, o cenário se inverteu: não apenas deixou de haver prova positiva de adulteração, como as novas evidências apontam de forma muito consistente para a conclusão oposta: as alterações de A Gênese foram produzidas pelo próprio Allan Kardec, no exercício regular de revisão autoral.

A tese da adulteração, portanto, perdeu sustentação historiográfica robusta. Ela não subsiste mais como hipótese científica viável, permanecendo apenas como posição ideológica residual, fundada na preservação de determinadas narrativas identitárias sobre a figura do Codificador.

O surgimento de dois campos hermenêuticos

Desse processo emergiram dois polos interpretativos:

Campo A — Manutenção da tese da adulteração
  • sustenta que os indícios iniciais permanecem suficientes;
  • descarta ou relativiza o peso das novas evidências documentais;
  • destaca inconsistências percebidas no texto final;
  • preserva a imagem de um Kardec absolutamente homogêneo e imutável;
  • interpreta as revisões como ruptura inaceitável com o suposto projeto original.
Campo B — Revisão histórica da tese
  • considera decisivo o conjunto ampliado de provas documentais;
  • conclui pela autoria das alterações;
  • compreende o episódio como revisão legítima de obra por seu próprio autor;
  • reconhece em Kardec um pensador em processo de amadurecimento doutrinário.

Embora ambos os campos se apresentem como defensores da “verdade histórica”, operam a partir de pressupostos emocionais e identitários distintos, revelando que o debate ultrapassou há muito o domínio estritamente documental — transformando-se num campo de disputas simbólicas sobre a própria imagem de Kardec e sobre o caráter do Espiritismo contemporâneo.

Conclusão implícita

O que o caso de A Gênese evidencia é precisamente a tese maior desta  reflexão: A evidência ilumina — mas só convence quem está disposto a rever crenças. A controvérsia já não subsiste por insuficiência documental, mas por resistência cultural à aceitação de um Kardec evolutivo e não dogmático, tal como ele próprio sempre se apresentou.

Onde entram as crenças?

Aqui a questão inicial ganha forma concreta: por que intelectuais preparados continuam sustentando a tese da adulteração diante de evidências contrárias? Porque o debate não é apenas factual — é simbólico. Aceitar que Kardec revisou A Gênese significa desmontar a primeira imagem — e para muitos isso representa:

  • Perda de segurança doutrinária;
  • Desestabilização de militâncias intelectuais construídas;
  • Enfraquecimento do discurso anticlerical de corte simplificado;
  • Desconstrução de identidades teóricas arduamente edificadas.

Assim, a reação não é estritamente racional, mas defensiva: rejeita-se a nova evidência para salvaguardar a narrativa pessoal e coletiva construída ao redor do “Kardec ideal”.

Quando a crença se torna filtro das provas

Esse fenômeno segue exatamente o padrão psicológico já mencionado: as provas não moldam a crença, é a crença que decide qual prova “vale”. A crença funciona como lente seletiva: para uns, as evidências posteriores são insuficientes ou “suspeitas”. Para outros, são esclarecedoras e praticamente conclusivas. O desacordo não nasce da ignorância, mas da incongruência de disposições interiores diante da mudança de paradigma.

Uma conclusão espiritualmente coerente

O episódio revela um ensinamento valioso para o próprio movimento espírita: a prova pode iluminar o caminho, mas a maturidade do espírito é que decide se a luz será aceita. E talvez esta seja a lição mais profunda: o mais difícil não é descobrir novos fatos,  
é aceitar que eles nos obriguem a rever a nós mesmos.

Quando o debate privado vira problema público

Enquanto a divergência permanece entre pesquisadores, trata-se de um conflito normal de interpretação. O agravante surge quando o debate se projeta sobre um público amplo, formado majoritariamente por leitores não especializados — espíritas e simpatizantes — que não possuem as ferramentas historiográficas para avaliar criticamente as evidências, confiam na autoridade intelectual ou moral de líderes e autores de referência, tomam posicionamento não por análise própria, mas por adesão a discursos legitimados.

Nesse momento, o caso deixa de ser mera controvérsia historiográfica e se converte num fenômeno de comunicação social, com profundas implicações morais e espirituais.

O leitor perde o critério de validação

Como grande parte do público não domina metodologia histórica, não tem acesso direto a fontes primárias e depende de traduções e interpretações a verdade deixa de ser procurada nos fatos e passa a ser definida pelo carisma ou pelo prestígio do emissor. Isso é a substituição da razão pela autoridade — exatamente o traço clássico do dogmatismo religioso, contra o qual Kardec se insurgiu.

Forma-se a “confusão social total”

A confusão tem várias formas práticas:

  • Fragmentação da comunidade espírita, com grupos rivais;
  • Desconfiança generalizada, inclusive em relação a pesquisadores sérios;
  • Radicalização discursiva, com acusações mútuas de má-fé ou traição;
  • Enfraquecimento da cultura do estudo, substituída por militância de opinião.

O efeito mais danoso é esse: o espírita comum deixa de se sentir aprendiz da verdade para tornar-se torcedor de interpretações.

Uma síntese final

O problema maior do caso de A Gênese não é saber quem tem razão — é o fato de a disputa ter sido travada sem responsabilidade pedagógica, convertendo leitores em seguidores de versões em vez de aprendizes livres da verdade. E talvez a conclusão mais fiel ao espírito de Kardec seja esta: a verdade não precisa de exércitos de fiéis – precisa de consciências esclarecidas.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

Olá, seu comentário será muito bem-vindo.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.