A reportagem do El País lança luz sobre uma realidade antiga e persistente: o apagamento social de meninas e mulheres com altas habilidades intelectuais.

A invisibilidade não advém da ausência de talento, mas justamente do contrário — nasce do conflito entre o dom individual e os moldes normativos de gênero, comportamento e pertencimento social.

A reportagem acerta ao destacar que não se trata apenas de uma falha pedagógica de diagnóstico, mas de um fenômeno cultural mais profundo: meninas aprendem muito cedo que ser “excessiva” — em inteligência, sensibilidade ou profundidade — pode significar isolamento, cobrança social ou rejeição.

A consequência é uma pedagogia silenciosa da renúncia: para “pertencer”, adaptam-se; para não parecerem estranhas, reduzem-se; para não destoar, escondem-se. Desenvolvem, assim, uma identidade performática: deixam de ser quem são para representar quem “convém ser”. O talento, que deveria expandir a existência, transforma-se em tensão interna contínua — daí os sintomas psicossomáticos descritos pela reportagem: o corpo passa a falar quando a subjetividade é proibida de existir plenamente.

A matéria também merece elogio por reconhecer um ponto delicado: nem todo talento se manifesta em rendimento escolar espetacular, sobretudo quando as áreas de destaque pertencem a campos desvalorizados por modelos educacionais tecnicistas — habilidades linguísticas, artísticas, empáticas, criativas. Nesse sentido, a “normalidade” escolar resulta menos de um olhar neutro e mais de um recorte cultural do que se entende por inteligência.

O sofrimento de não poder ser

Do ponto de vista psicológico, a situação descrita na reportagem dialoga com aquilo que hoje se reconhece como dissonância identitária precoce: quando o sujeito aprende a negar aspectos centrais de si para ser aceito, instala-se uma ruptura entre o eu autêntico e o eu adaptado. O custo dessa cisão não é pequeno: perfeccionismo excessivo, ansiedade crônica, autoexigência desmedida, sensação difusa de inadequação e fadiga mental — traços muito presentes nos relatos de mulheres que descobrem suas altas habilidades apenas na vida adulta.

Esse processo representa um paradoxo: quanto maior o potencial, mais silenciosa pode ser a jornada interior. O sofrimento, nesse caso, não grita — ele se instala como um cansaço existencial persistente, uma melancolia sem causa explícita, uma sensação vaga de “não ter sido”.

Quando a identificação finalmente ocorre, frequentemente vem acompanhada de lágrimas — não por alegria simples, mas por luto: reconhece-se o dom tarde, quando já se viveu uma longa história marcada por negação, solidão e subaproveitamento de si.

Uma leitura espiritual: o Espírito e a negação da identidade

À luz do Espiritismo, esse fenômeno pode ser interpretado de maneira ainda mais profunda.

A Doutrina Espírita ensina que não somos apenas produtos do meio, mas Espíritos em processo de evolução, trazendo de outras existências experiências, sensibilidades e aquisições intelectuais ou morais. Altas habilidades, longe de serem casualidades biológicas isoladas, podem ser compreendidas como potenciais do Espírito reencarnante, que se expressam conforme o campo cultural, educacional e emocional encontra (ou não) espaço para acolhê-los.

Quando a sociedade — por meio de seus padrões de gênero e normalização comportamental — impede a manifestação natural desses valores espirituais, cria-se um tipo específico de sofrimento: a frustração do propósito existencial.

O Espírito, que reencarna para expandir suas faculdades e servir pelo desenvolvimento do bem, vê-se constrangido a reduzir-se. Surge então aquilo que poderíamos chamar de dor de vocação interditada — não é apenas sofrimento psicológico, mas um conflito íntimo entre aquilo que o Espírito sabe poder ser e o que lhe permitem ser.

Essa negação prolongada pode ajudar a compreender os quadros de hipersensibilidade, adoecimento psicossomático e exaustão emocional: o corpo absorve a tensão gerada por uma consciência que não encontra expressão legítima na experiência social.

O reencontro consigo: autoconhecimento como libertação

Sob essa ótica espiritual, o processo adultamente descrito de avaliação e identificação ganha outra dimensão: trata-se não apenas de um diagnóstico psicológico, mas de um reencontro do Espírito consigo mesmo.

Quando essas mulheres finalmente nomeiam suas capacidades, não estão inflando o ego — estão restituindo à própria identidade um direito que lhes foi negado. Libertam-se da culpa por “não se encaixar”, aliviam a autocrítica obsessiva e iniciam um percurso de integração interior: passam a reconciliar sensibilidade, inteligência, criatividade e singularidade com seu lugar no mundo.

Esse processo reflete exatamente o que Kardec descreveu como uma das funções essenciais do autoconhecimento: compreender as próprias tendências para orientar melhor o uso do livre-arbítrio e da vocação. Reconhecer-se não é vaidade — é responsabilidade espiritual. O dom, para o Espiritismo, não existe para ser ocultado, mas para ser convertido em serviço, criação, instrução, cuidado e transformação.

Educação, cultura e responsabilidade moral

A matéria honra ainda outro debate central: detectar talentos não é apenas um desafio técnico, mas moral. É dever da educação reconhecer a pluralidade das inteligências e promover ambientes onde diferenças não sejam punidas com invisibilidade.

À luz do Espiritismo, isso se traduz como compromisso coletivo com o progresso: quando uma inteligência se cala por pressão social, toda a humanidade perde um canal potencial de avanço. Não é apenas a mulher que sofre — é a própria comunidade que deixa de receber o fruto daquele Espírito.

Conclusão: permitir-se ser

A frase final da reportagem — “permitir-se ser sem pedir desculpas” — dialoga surpreendentemente com a ética espírita da autenticidade espiritual. Ser quem se é, desenvolver seus talentos e oferecê-los ao mundo não constitui afronta à humildade; ao contrário, é fidelidade à própria missão reencarnatória.

Essas “invisíveis da inteligência” simbolizam uma ferida maior da civilização: a dificuldade de aceitar a diferença como riqueza. A educação inclusiva, a escuta sensível e a compreensão espiritual do ser humano não são caminhos concorrentes — são complementares.

Reconhecer o dom é curar a história pessoal; acolhê-lo socialmente é realizar um gesto coletivo de progresso moral. Nesse ponto, psicologia, pedagogia e Espiritismo convergem: só há verdadeira saúde quando o ser humano pode existir inteiro.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

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