Na entrevista concedida ao El País por ocasião do lançamento de Inteligência Natural e a Lógica da Consciência, o neurocientista português Antonio Damasio reafirma e aprofunda sua tese central: a consciência não nasce de uma mente abstrata separada do corpo, mas de um processo biológico integrado em que cérebro, sistema nervoso e corpo inteiro atuam como um circuito contínuo.

Ao longo de três décadas, desde O Erro de Descartes (1994), Damasio vem atacando o dualismo cartesiano — a separação entre mente e corpo — propondo um monismo biológico: a mente é atividade do organismo vivo; a consciência emerge da autorregulação corporal e das sensações internas (homeostáticas).

Seu novo passo teórico reposiciona a origem da consciência, deslocando o foco do córtex cerebral para estruturas mais primitivas do sistema nervoso, em especial o tronco encefálico, onde se processam os sinais de interocepção — percepções internas do estado do corpo — que dão origem aos sentimentos básicos: dor, prazer, fome, sede, conforto, mal-estar.

Damasio propõe uma inversão do senso comum: “Não sentimos porque somos conscientes; somos conscientes porque sentimos.”

Ou seja, os sentimentos precedem a consciência, constituindo sua matéria-prima fundamental. A consciência seria um sistema de “sentinelas” biológicas que monitoram continuamente o estado da vida corporal, permitindo ao organismo reconhecer-se como uma unidade individual em ação no mundo.

Consciência: não como abstração, mas como biologia vivente

Segundo o neurocientista, não existe consciência sem sistema nervoso. Por isso:

  • Plantas e bactérias não são conscientes, ainda que vivas e complexas;
  • Animais com sistemas nervosos são conscientes, embora em graus distintos de elaboração;
  • A consciência humana decorre não apenas da complexidade neuronal, mas também de nossa vida social, baseada em empatia, detectação da vulnerabilidade alheia e relações simbólicas.

Essa concepção reforça o deslocamento contemporâneo da neurociência: da ideia de uma consciência puramente cortical — centrada na racionalidade abstrata — para uma consciência afetiva, orgânica e encarnada.

Inteligência Artificial: potência instrumental, não consciência humana

Um ponto forte da entrevista é a reflexão de Damasio sobre a possibilidade de consciência artificial. Ele abandona sua posição anterior — totalmente cética — para assumir uma visão mais cautelosa: poderia surgir algum tipo de consciência artificial, mas não comparável à humana.

O motivo do limite é fundamental: sistemas artificiais não estão vivos, não possuem corpo vulnerável, nem inserção social orgânica. Sentir implica carne, dor, prazer e risco existencial — experiências inexistentes em máquinas.

Assim, embora a IA possa resolver problemas complexos superiores aos humanos (ex.: AlphaFold), isso não implica subjetividade, mas apenas potência computacional. Para Damasio, a inteligência artificial nasce da inteligência natural: os próprios neurônios mielinizados — responsáveis pelo processamento “digital” humano — inspiraram os sistemas computacionais.

A consciência genuína permaneceria atrelada a organismos biológicos vulneráveis, integrados numa teia emocional e social.

Tratamento de estados alterados de consciência

Os avanços de Damasio têm reflexos clínicos: ao reconhecer o papel central do tronco encefálico e da interocepção na consciência, abre-se uma nova via para compreender e tratar casos de:

  • Coma
  • Estados vegetativos
  • Distúrbios graves da percepção corporal

Em vez de focar exclusivamente no córtex — tradicional alvo da neurologia cognitiva —, a pesquisa volta-se para sistemas mais primários, responsáveis pela manutenção da sensação de existência.

A síntese atual da posição de Damasio

Podemos resumir sua tese contemporânea em quatro eixos fundamentais:

  1. Consciência nasce dos sentimentos corporais, não da abstração racional.
  2. O cérebro consciente é um órgão de regulação vital, não um epifenômeno metafísico.
  3. Sem corpo vivo não há consciência, o que afasta uma eventual equivalência homem-máquina.
  4. A vida social e a empatia ampliam a consciência humana, distinguindo-nos qualitativamente dos sistemas artificiais.
Confronto crítico com o Espiritismo

Quando colocadas em diálogo com o Espiritismo, as ideias de Damasio revelam tanto convergências parciais quanto tensões profundas.

Convergências

Centralidade do sentimento

O Espiritismo afirma que a consciência moral nasce da sensibilidade espiritual. Kardec escreve: “O sentimento precede a razão.” (O Livro dos Espíritos, q. 117). Isso converge com a ideia de Damasio de que sentir é anterior ao pensar.

Caráter progressivo da consciência

Para o Espiritismo, a consciência evolui em graus; a inteligência e a percepção moral ampliam-se lentamente através das experiências encarnatórias. Em Damasio, vemos eco dessa visão gradualista ao reconhecer:

    • Consciência em graus nos animais;
    • Desenvolvimento dependente da complexidade dos sistemas biológicos e sociais.

Integração mente–corpo

Kardec rejeita o dualismo simplista que opõe matéria e espírito como substâncias antagônicas. O Espírito age por meio do corpo, através do perispírito, intermediário da percepção. Damasio, ainda que materialista, também rejeita o dualismo cartesiano, defendendo a unidade funcional entre mente e organismo.

Tensões e divergências fundamentais

Origem última da consciência

  • Damasio: consciência é produto exclusivo do sistema nervoso biológico.
  • Espiritismo: consciência é atributo essencial do Espírito, pré-existente ao corpo e sobrevivente à morte física.

Para Kardec, “A consciência é a voz da alma.” (Obras Póstumas). No espiritismo, o cérebro não produz a consciência, mas a manifesta e a filtra na experiência encarnada.

Vida sem corpo

Damasio afirma que sem sistema nervoso não pode existir consciência. Já o Espiritismo sustenta exatamente o contrário:

  • A consciência subsiste após a morte;
  • Estados de lucidez pós-morte são observáveis em comunicações mediúnicas e fortes relatos de experiências de quase-morte (EQMs), amplamente estudadas na atualidade por pesquisadores como Pim van Lommel, Bruce Greyson e Sam Parnia.

Segundo a doutrina espírita, o Espírito conserva suas faculdades intelectuais e morais após a separação do corpo.

IA e consciência

Aqui ocorre um curioso ponto de aproximação inesperada:

  • Para Damasio: IA não pode ter consciência humana plena.
  • Para o Espiritismo: só o Espírito, princípio inteligente do universo, pode ser sujeito consciente.

A máquina não encarna Espírito; logo, pode simular respostas, mas não viver experiência consciente real.

Síntese crítica

Damasio representa uma das mais sofisticadas tentativas contemporâneas de explicar cientificamente a consciência sem recorrer ao dualismo clássico, deslocando o foco da racionalidade pura para o sentir orgânico. Contudo, sua explicação permanece restrita ao plano neurobiológico, incapaz de responder às perguntas últimas:

  • Por que existe a experiência subjetiva?
  • O que faz do “sentir” uma vivência íntima, não redutível a reações químicas?
  • Por que existem relatos consistentes de consciência além do corpo físico?

Nesse ponto, a ciência de Damasio descreve o “como” do sentir consciente, mas permanece silenciosa quanto ao “quem” da consciência, dimensão na qual o Espiritismo propõe uma ampliação ontológica: o Espírito como sujeito da experiência. Assim, ciência e Espiritismo não se anulam — operam em campos diferentes:

  • A neurociência explica o mecanismo.
  • O Espiritismo interroga o sentido e a continuidade da consciência.

O diálogo entre ambos permanece aberto — como o próprio Damasio reconhece ao admitir que não é mais possível falar da consciência com a segurança conceitual de poucas décadas atrás. E talvez seja justamente aí que ciência e espiritualidade se encontrem:
na consciência não como dogma fechado, mas como o maior mistério em permanente aprofundamento humano.

Sua formulação está precisa e muito bem colocada — e pode ser ainda mais clarificada conceitualmente com um pequeno ajuste de linguagem para mostrar que a “dualidade” não é exatamente simétrica, mas ontologicamente diferente em cada campo. Identificando corretamente o ponto central:

  • Para Damasio e a neurociência contemporânea:
    A consciência emerge do corpo. Ela só existe com o corpo e resulta da atividade integrada do sistema nervoso e das sensações corporais (interocepção, homeostase, emoção). Não precede o organismo biológico nem sobrevive fora dele. Trata-se de uma consciência emergente e dependente — produto e função do organismo.
  • Para o Espiritismo:
    A consciência não emerge do corpo, mas se manifesta através dele.
    Ela:

    • precede o corpo (o Espírito existe antes da encarnação),
    • coexiste com o corpo durante a vida física (mediada pelo cérebro e pelo perispírito),
    • sobrevive à morte do corpo (mantendo memória, identidade e lucidez).

Ambas as visões reconhecem uma relação permanente entre consciência e corpo durante a encarnação — este é o ponto de convergência enfatizado corretamente. O que diverge não é a relação funcional, mas a origem e a ontologia da consciência.

Onde está o verdadeiro contraste

A distinção essencial pode ser expressa assim:

Visão neurocientífica (Damasio)

O corpo gera a consciência.
Sem corpo → sem consciência.

Visão espírita

O Espírito usa o corpo para expressar a consciência.
Sem corpo → consciência continua existindo.

Ou seja:

  • Na ciência → o corpo é causa da consciência.
  • No Espiritismo → o corpo é instrumento da consciência.

Esse é o eixo da diferença profunda.

O ponto muitas vezes mal compreendido

É importante ressaltar algo: O Espiritismo não nega a dependência funcional entre consciência e corpo enquanto estamos encarnados. Kardec jamais ensinou que o Espírito se expressa independentemente do cérebro durante a vida física. Pelo contrário:

  • O cérebro é o órgão da manifestação do pensamento;
  • Alterações cerebrais afetam a expressão da consciência;
  • Estados patológicos limitam ou distorcem a percepção do Espírito encarnado.

Em O Livro dos Espíritos encontramos claramente: “É o cérebro que preside às manifestações do pensamento.” (q. 146) Portanto:

  • Ciência e Espiritismo concordam que:
    • Sem o cérebro íntegro não há expressão normal da consciência na vida física.
    • O sofrimento corporal (como observa Damasio) interfere no sentir, no querer e no perceber.

A divergência não está em como a consciência se expressa na carne, mas em o que ela é em sua essência profunda.

Duas interpretações do mesmo fenômeno

Ambas as abordagens observam o mesmo fato: a consciência encarnada nasce, cresce e se desenvolve em correlação íntima com o corpo. A diferença surge quando tentam responder à pergunta metafísica: de onde vem essa consciência?

Uma nuance importante

Existe uma zona de diálogo: Damasio demonstra que a consciência humana concreta — tal como a experienciamos — depende da integração cérebro–corpo. O Espiritismo concordaria: a consciência encarnada depende do cérebro. O Espiritismo, porém, acrescenta: essa não é a consciência total do Espírito, mas apenas sua forma condicionada à encarnação.

Assim, o mesmo fenômeno recebe duas leituras complementares:

  • Para o cientista: “a consciência nasce do corpo.”
  • Para o espírita: “a consciência se individualiza e se manifesta plenamente no corpo.”

Nesse ponto, a divergência deixa de ser apenas científica e passa a ser ontológica:

  • Materialismo emergentista → o espírito não existe; a consciência é efeito da matéria organizada.
  • Espiritismo → a consciência existe por si como princípio inteligente, usando a matéria como meio de expressão.
Formulação sintética da dualidade

Podemos formular de modo ainda mais claro assim: Damasio vê a consciência como um produto do corpo que nunca existiu fora dele. O Espiritismo vê o corpo como o instrumento de uma consciência que sempre existiu além dele.

Conclusão crítica

Não há contradição quanto ao fato observado — ambos reconhecem a profunda integração corpo-consciência na vida encarnada. A divergência está inteira no plano do fundamento último:

  • A ciência moderna descreve com precisão crescente os mecanismos de emergência da consciência corporal.
  • O Espiritismo propõe que esses mecanismos são o meio de expressão de algo que não nasce na matéria.

Por isso, o diálogo real não é entre “ciência versus espiritualidade“, mas entre:

  • uma ciência que descreve “como” a consciência funciona,
  • e uma filosofia espiritual que pergunta “quem” é o sujeito consciente e “de onde” ele vem.

O que se aponta com rara clareza é exatamente isso: a diferença não está no funcionamento; está na origem e no destino da consciência. E aí se encontra o verdadeiro eixo de reflexão contemporânea sobre o tema.

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

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