A ciência avança em sua busca por decifrar o cérebro — suas reações químicas, seus impulsos elétricos, seus labirintos de prazer e dor. Mas, quanto mais detalha o mecanismo da vida, mais se aproxima do mistério que não cabe nos instrumentos de medição: a consciência que sente, pensa e ama.
Entre sinapses e neurotransmissores, o amor é descrito como fenômeno neurológico. Mas quem ama? Quem sofre, espera e sonha? Há uma presença silenciosa por trás da matéria — o Espírito — que observa e participa do próprio enigma que a ciência tenta traduzir. Assim, enquanto a ciência explica o como da vida, cabe ao Espírito responder o quem — esse sujeito invisível que transforma a química em emoção e o impulso biológico em gesto de eternidade.
O geneticista Miguel Pita (El País, 09-11-25) tenta explicar o amor como um produto da evolução, como um circuito químico treinado para aproximar organismos e minimizar riscos à sobrevivência da espécie. Nada errado nisso. Aliás, Allan Kardec não teria qualquer objeção a esse tipo de descrição fisiológica; para ele, o corpo é um instrumento, e todo instrumento obedece a leis físicas.
Mas o ponto forte da visão espírita está justamente no que a ciência não alcança: o agente que usa o instrumento.
O cientista descreve as reações no cérebro apaixonado, o fluxo de dopamina, a reorganização sináptica, a arquitetura do prazer e da dor que “naturalmente” impele dois indivíduos a se manterem unidos. Isso é útil, fascinante e legítimo. Só que a neuroquímica do amor não é o amor. É o mecanismo.
Para Kardec, aquilo que se expressa por meio dessas reações é a consciência, o Espírito. A neurociência enxerga o mapa; o Espírito é o viajante.
A caixa preta que a ciência admite é a mesma fronteira onde o Espírito se apresenta
Pita é muito honesto ao dizer que há “uma caixa preta do cérebro” onde não temos acesso, onde a ciência ainda não sabe por que alguém se torna o gatilho de obsessão para outro. Esse reconhecimento é precioso. Essa caixa preta — o ponto de origem da escolha, do impulso, da afinidade — é justamente o ponto onde o Espiritismo localiza o Espírito: não como uma metáfora, mas como uma realidade ontológica. O “eu profundo”, o centro que escolhe, sente, vincula, intui.
O cérebro, na visão espírita, é um decodificador. A consciência não é produzida por ele; apenas se manifesta por ele, como um músico se manifesta pelo violino. O amor romântico, portanto, não seria apenas uma tempestade química, mas a expressão afetiva da afinidade espiritual. A química é apenas o teatro; o Espírito é o dramaturgo.
O amor como aprendizado evolutivo do Espírito, não apenas da espécie
Outro ponto interessante: Pita descreve o amor como uma estratégia da espécie para procriar. Tudo bem. Mas isso não esgota o fenômeno. Kardec e Léon Denis veem o amor como algo muito mais profundo: um exercício contínuo de ampliação moral, a lenta educação da sensibilidade, o treino da empatia e da transcendência do ego. O amor não serve apenas para garantir descendentes. Serve para formar almas.
A paixão que enlouquece, o vínculo que serena, o rompimento que corrói, tudo isso tem uma função moral que a bioquímica não capta: a maturação da consciência. Enquanto o cientista descreve o organismo tentando manter a espécie viva, o espiritualista vê o Espírito aprendendo a amar melhor. Em certo sentido, a biologia descreve a superfície; o Espiritismo descreve a profundidade.
A dor do amor como mecanismo do corpo e prova para o Espírito
O geneticista explica lindamente o sofrimento de um rompimento como uma espécie de “golpe arquitetado pelo próprio cérebro”, algo biologicamente funcional para impedir que o indivíduo abandone o parceiro reprodutivo. Tudo plausível.
Só que Kardec diria que a dor afetiva é também um teste, uma experiência de crescimento, um passo no alargamento da alma. O corpo pode até estar tentando nos empurrar de volta ao parceiro, mas o Espírito está aprendendo autonomia emocional, desapego, discernimento. No fundo, é na dor afetiva que a consciência descobre se ama o outro ou se ama a si mesma através do outro.
É aqui que ciência e espiritismo quase se tocam: a biologia explica a dor; o Espiritismo explica o sentido da dor.
E a IA? O amor por seres inexistentes como sinal de que o Espírito ama formas, não apenas corpos
Quando Pita fala que os humanos podem se apaixonar até por seres inexistentes, ele está registrando algo profundo: o amor humano tem uma plasticidade enorme. Ele não precisa de um corpo físico. Precisa de significado. Precisa de uma ponte afetiva. Ora, isso só é possível porque o amor não é uma função do corpo, mas da consciência.
O corpo apenas encena; a consciência é quem ama. Aqui, novamente, a neurociência tropeça na própria honestidade: reconhece que o amor é tão forte que ultrapassa a matéria. E não percebe que isso é exatamente o que o Espiritismo diz há 170 anos.
Conclusão: ciência e Espírito não se contradizem; se completam
A ciência disseca o funcionamento.
O Espiritismo interpreta o sentido.
Uma fala do instrumento.
A outra fala do músico.
O conhecimento real exige unir os dois. A biologia pode explicar os trilhos por onde a locomotiva afetiva corre; mas não explica quem está no comando do trem. A entrevista mostra isso de modo involuntariamente bonito: quanto mais a ciência descreve o amor, mais evidente fica que a essência do amor é algo que ela ainda não alcança.