RESENHA CRÍTICA

Livro: O Deus de Spinoza
Autor: José Lázaro Boberg
Editora: Nova Consciência — 16 x 23 cm — 208 p. — capa colorida

 

A obra O Deus de Spinoza – Einstein, Spinoza e a face impessoal do divino, de José Lázaro Boberg, propõe-se a enfrentar um dos temas mais complexos da tradição filosófica e espiritual: a natureza de Deus. Para tanto, o autor articula referências ao pensamento de Baruch Spinoza, à visão científica de Albert Einstein e à interpretação espírita da divindade — razão pela qual o título vem acompanhado da indicação: Uma leitura espírita.

Contudo, há um aspecto metodológico central que orienta a correta compreensão do livro: Boberg não analisa diretamente o pensamento filosófico de Spinoza em suas fontes originais, mas toma como base um texto amplamente difundido sob o título “O Deus de Spinoza”, cuja autoria é controversa e objeto de questionamento no próprio livro.

Como observa o autor:

“O texto […] vem sendo reproduzido, constantemente, na internet como de autoria de Baruch Spinoza. Alguns estudiosos questionam a autenticidade quanto à sua autoria. Têm-se inquirido, por alguns livres-pensadores, quanto à diferença de linguagem entre seus escritos e a vazada no texto em questão.”

Esse ponto é decisivo. O livro não se configura como uma exegese da filosofia spinoziana, mas como uma reflexão construída a partir de um texto atribuído ao filósofo. Essa mediação desloca o eixo da obra: não estamos diante de um estudo filosófico clássico, mas de uma leitura contemporânea do imaginário spinozista, filtrada por uma tradição espiritual e por preocupações existenciais atuais.

Tal constatação, longe de desqualificar o livro, permite situá-lo com maior precisão. Além disso, oferece ao leitor a oportunidade de conhecer — ou revisitar — o famoso texto sobre o “Deus de Spinoza”, agora sob uma leitura orientada pelo pensamento espírita que Boberg adota e defende.

Clareza, síntese e provocação intelectual

Uma vez compreendido esse enquadramento, os méritos da obra tornam-se mais evidentes.

Boberg demonstra notável capacidade didática ao organizar o livro em três partes progressivas, conduzindo o leitor da formação histórica da ideia de Deus à análise das proposições atribuídas a Spinoza. Essa estrutura favorece especialmente o público não especializado, oferecendo um percurso acessível e coerente.

Além disso, o autor realiza um esforço legítimo de síntese entre campos distintos — filosofia, ciência e Espiritismo — destacando a ideia de unidade subjacente ao universo, tema caro tanto ao monismo spinozista quanto à busca científica por uma unificação das forças naturais.

Outro ponto forte reside na crítica consistente ao antropomorfismo religioso. Ao sustentar que a personalização de Deus decorre da projeção humana, o autor se alinha a uma tradição filosófica robusta, que inclui não apenas Spinoza, mas também Feuerbach e correntes modernas da filosofia da religião.

Merece destaque, ainda, o capítulo 4 da primeira parte — O que eles disseram sobre Deus — no qual Boberg apresenta, de forma sintética, o pensamento de diversos autores sobre a ideia de uma “Inteligência suprema do Universo”, incluindo perspectivas materialistas, como as de Nietzsche e Carl Sagan, e outras de caráter espiritual.

A liberdade interpretativa

Entretanto, é precisamente a mediação interpretativa — que constitui a base do livro — que também delimita seus alcances.

Ao trabalhar sobre um texto atribuído a Spinoza, a obra não tem por objetivo o rigor conceitual do sistema spinozista. Assim, conceitos fundamentais como substância, atributos e modos, centrais na Ética, estão ausentes ou apenas implicitamente sugeridos.

Com isso, o “Deus de Spinoza” apresentado ao leitor tende a assumir a forma de um princípio espiritual mais próximo de uma síntese contemporânea entre deísmo, monismo e espiritualidade do que da ontologia rigorosa do filósofo holandês.

Diante disso, a obra se define mais adequadamente não como um estudo filosófico em sentido estrito, mas como um ensaio de espiritualidade filosófica.

Essa caracterização ajuda a compreender sua força: permite liberdade interpretativa, diálogo interdisciplinar e maior aproximação com o leitor contemporâneo.

Nesse sentido, Boberg não pretende reconstruir Spinoza, mas dialogar com uma imagem de Spinoza já culturalmente difundida, reinterpretando-a à luz de suas próprias convicções e da tradição espírita.

A questão da autonomia e da consciência

Um dos eixos mais interessantes do livro é a ênfase na autonomia moral. Ao rejeitar a ideia de um Deus interventor e julgador, o autor desloca a responsabilidade ética para a consciência individual — perspectiva que encontra ressonância tanto no pensamento moderno quanto em determinadas leituras do Espiritismo.

Esse deslocamento, ainda que não seja propriamente spinozista em sentido técnico, revela uma preocupação contemporânea legítima: a superação de modelos religiosos baseados na dependência e no medo.

Síntese crítica – conclusão

O Deus de Spinoza, de José Lázaro Boberg, é uma obra que deve ser lida a partir de seu verdadeiro ponto de partida: como uma reflexão sobre um texto que lhe é atribuído. Essa distinção é essencial. Ela permite compreender o livro como:

  • uma obra de divulgação e reflexão espiritual
  • uma leitura contemporânea do imaginário filosófico
  • um ensaio que busca integrar ciência, filosofia e Espiritismo

Reafirmando, a obra cumpre um papel relevante ao provocar o leitor a repensar a ideia de Deus, afastando-se das imagens antropomórficas e aproximando-se de uma concepção mais abstrata e impessoal da divindade.

Eis que sua principal característica — a mediação interpretativa — é também seu limite: ao dialogar com um Spinoza já reinterpretado, o livro ganha em liberdade, ainda que perca em rigor conceitual. Lido como ensaio, é instigante e profundamente reflexivo.

E é precisamente nesse espaço intermediário — entre a fidelidade conceitual e a recriação espiritual — que reside sua identidade mais autêntica.

 

By wgarcia

Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística. Aposentado.

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